O corcunda de Notre Dame – Victor Hugo

Acho que todo mundo conhece um pouco sobre O corcunda de Notre Dame por causa do filme da Disney. Esse foi um dos primeiros filmes que vi no cinema e eu lembro de ter gostado muito (fiz até coleção de bonequinhos dos personagens que vinham na caixa de sucrilhos). A questão é que o filme dos anos 90 me deixou com uma imagem de que O corcunda de Notre Dame era uma história fofa e romantica, o que não corresponde a imagem que o livro me deixou.

Em 2016 eu participei da leitura coletiva de Os miseráveis. Depois de tanto tempo que terminei o livro, a primeira coisa que eu penso quando lembro dessa leitura é a forma como o Victor Hugo conta a história. As digressões e as longas descrições da Paris da época, me marcaram mais do que todas as reviravoltas na vida de Jean Valjean e todas as outras personagens.

Tem muita gente que reclama de autores que gastam muitas linhas, ou páginas, descrevendo um cenário, uma roupa… (Essa é a reclamação que eu mais ouço sobre o Tolkien, por exemplo). Mas eu acho que essa é a grande graça dos livros do Victor Hugo. A experiência de leitura de um romance do Victor Hugo é absurdamente imersiva. Não tem como não viver junto cada momento da vida das personagens.

A minha experiência com O corcunda de Notre Dame foi tão forte quanto com Os miseráveis. Talvez tenha sido mais forte porque O corcunda de Notre Dame é um livro muito mais pesado.

Na edição que eu li, da editora Zahar, o título do livro é O corcunda de Notre Dame. A editora Estação Liberdade traz o livro com outro título, Notre Dame de Paris. Depois de ler o livro acho que o título da Estação Liberdade é mais coerente. Apesar de o corcunda, Quasímodo, ser um personagem importante, não consigo ver ele como personagem principal.

A grande personagem principal do livro, ao meu ver, é Notre Dame. Além dela a Paris medieval é o centro da história toda. Isso pode parecer muito estranho pra quem nunca leu Victor Hugo, mas quem leu Os miseráveis sabe que faz todo sentido. Mais uma vez Victor Hugo cria personagens que retratam diferentes classes e tipos sociais da Paris da época, no caso, da Paris medieval. Nesse livro temos o clero representado pelo Claude Frollo, os militares representados por Phoebus e depois temos os personagens à margem da sociedade: Pierre Gringoire, poeta pobre cheio de boas intenções, Esmeralda, a cigana e Quasímodo, o corcunda.

Cada um deles vai mostrar a realidade de Paris por uma perspectiva completamente diferente. E pra ajudar o leitor a entender melhor a dinâmica das personagens, obviamente temos alguns capítulos soltos pelo livro com digressões que explicam a cidade. Tem um capítulo inteiro sobre a arquitetura de Notre Dame. Nesse capítulo Victor Hugo descreve cada detalhe da construção, de cada vitral, cada pilatras, cada arco e também fala sobre todas as modificações que a catedral sofreu ao longo dos anos. Além disso tem outro capítulo que faz como se fosse um vôo por Paris. É literalemnte como se a gente olhasse a cidade de cima. Aos poucos Victor Hugo conta como era cada região da cidade. São capítulos longos em que não acontece nada sobre, mas que transformam complemtamente a nossa relaçao com o livro. Depois de ler esses capítulos você consegue visualizar cada rua em que as personagens passam. Quando alguem está na varanda olhando a cidade, você consegue enxergar a mesma Paris que aqueles personagens estão olhando. Isso é maravilhoso.

Esse é um livro com muitas cenas de crueldade. Tem a crueldade do abandono do Quasímodo ainda bebê por ser deformado. Temos um personagem obcecado por Esmeralda. Claude Frollo que foi o único a acolher Quasímodo, que passou a vida se empenhando na educação do irmão mais novo, perde a razão e entra numa fase de loucura por causa do conflito que ele sente por amar Esmeralda. Outra personagem aparece por ter perdido a razão. Uma mulher que teve a filha sequestrada ainda criança. Depois desse sequestro a mulher não consegue se manter sã e passa a viver isolada em uma catacumba. No livro aparecem cenas em que as pessoas apanhavam em praça pública como castigo por algum crime.  A violência não aparece no livro só na forma da violência física. Quasímodo é constantemente desumanizado por ser deformado.  Ao longo da história Esmaralda também sofre um pouco essa desumanização por ser vista como uma feiticeira, uma bruxa aos olhos da inquisição. Tem também a violência da exclusão social. Esmeralda vive no Pátio dos Milagres. O Pátio dos Milagres é uma região de Paris habitada por pobres, por ladrões, prostitutas, por todos que eram considerados escória. Eles tinham seus governantes, juízes, suas regras. A gente conhece a dinâmica do Pátio dos Milagres pelos olhos de Pierre Gringoire.

Falar sobre O corcunda de Notre Dame não é fácil. As personagens do livro são muito complexas. Ninguém é bom ou ruim do início ao fim.

O ponto forte desse livro não é a história de amor impossível, como mostra no filme da Disney. O ponto forte é o retrato da Paris medieval e os extremos de pureza e crueldade que fazem parte da natureza humana.

A edição que li foi da editora Zahar, que faz parte da coleção Clássicos Zahar edições  bolso de luxo, com 624 páginas. Me arrepensi um pouco por nao ter lido a edição comentada. Senti falta de notas de rodapé e textos de apoio. De todo jeito essa foi com toda certeza uma das melhores leituras de 2018.

3 comentários sobre “O corcunda de Notre Dame – Victor Hugo

  1. Muito legal vc ter voltado a comentar no seu blog (acho que vou fazer o mesmo no meu… rsrs).

    Victor Hugo me assusta pelo tamanho dos livros, mas é um dos autores que espero ler em 2019, e gostei do que vc disse sobre a cidade de alguma forma ser a personagem principal. É quase como se ela tivesse vida própria. Gosto muito de romances que exploram e desenvolvem a história sobre esse ponto de vista.

    Vc recomendaria ler primeiro Os Miseráveis ou Notre Dame de Paris?

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    1. Oi Mozart!
      Eu recomendo começar pelo Notre Dame de Paris. Além de ser um romance mais curto, e talvez por isso menos intimidador, ele tem menos digressões que Os Miseráveis. Acho que em Notre Dame de Paris o ritmo de leitura é mais constante. Nele já tem vários elementos que aparecem em Os Miseráveis, então acho que é um bom livro pra conhecer o estilo do Victor Hugo.
      Mas não se intimide pelo tamanho dos livros. A leitura de Victor Hugo é muito gostosa.
      E vamos todos voltar ao mundo dos blogs!!

      Beijos até mais

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