Uma mulher na contramão – Moll Flanders – Daniel Defoe

Alguns autores sempre são lembrados por uma obra específica. Mesmo que você nunca tenha lido nada de um determinado autor/autora sempre que alguém fala o nome da criatura, todo mundo pensa em um mesmo livro. Essa é a sensação que eu tenho com Daniel Defoe. Fala a verdade, se você ouve “Defoe” a primeira coisa que você pensa é “Robinson Crusoe”. Eu nunca li esse livro, mas é impossível não pensar nele sempre que aparece o nome do Defoe. Não estou aqui para diminuir Robinson Crusoe, até porque não faz sentido falar mal de um livro que nunca li, mas depois de ler Moll Flanders eu queria muito que as pessoas pensassem nesse livro também quando alguém falasse de Defoe, tenho a impressão que Moll Flanders é um clássico esquecido.

Moll Flanders é um livro muito bom. Já começa pelo título e subtítulo. Se você tem coração fraco, pule essa parte porque o autor não poupou spoilers nesse subtitulo:

As aventuras e desventuras da famosa MollFlanders & Cia.Que nasceu na prisão de Newgate, e ao longo de uma vida de contínuas peripécias, que durou três vintenas de anos, sem considerarmos sua infância, foi por doze anos prostituta, por doze anos ladra, casou-se cinco vezes (uma das quais com o próprio irmão), foi deportada por oito anos para a Virgínia e, enfim, enriqueceu, viveu honestamente e morreu como penitente.Escrito com base em suas próprias memórias

Mas que novelão mexicano esse livro promete ser não é mesmo? A mulher vai casar com o próprio irmão! Mas muitos leitores não curtem spoiler e podem se perguntar pra quê se  dar ao trabalho de ler um livro de 500 páginas, sendo que a gente já sabe tudo o que essa mulher vai passar só pelo título? E é justamente essa uma das grandes belezas do livro, Defoe joga na nossa cara uma das coisas que eu sempre falo e as pessoas não concordam muito, mas enfim, a graça não é exatamente saber o que vai acontecer, mas ter a experiência de saber como tudo isso vai acontecer. Quando um livro (ou qualquer história que seja, pode ser filme, série, tanto faz) é bem escrito você não vai perder a diversão por saber de acontecimentos pontuais da história, talvez esses spoilers até deixem você mais curioso, a graça mesmo é acompanhar a dinâmica dos acontecimentos, se divertir com a escrita, com o jeitão das personagens e etc. Leitura pra mim não é fofoca, eu não leio pra ficar sabendo detalhes da vida dos outros, eu leio para viver uma experiência diferente junto com aquelas personagens, entende o que eu quero dizer? (mas tudo bem se você se incomoda com spoilers, isso aqui é só a minha opinião)

A graça de Moll Flanders é descobrir como que ela caiu nessas presepadas todas. Mas vamos com calma, esse livro tem vários pontos interessantes que merecem destaque.

Já começa que ela é torta de nascença. Moll Flanders nasceu na prisão de Newgate enquanto a mãe cumpria sua sentença. Quando criança ela vivia em um abrigo e sonhava em ser uma dama. Essa parte é incrível porque esse livro foi escrito no século XVIII, por um homem, e ele cria uma personagem feminina que quando criança sonhava em ser uma dama, mas para essa menina ser dama significava ser independente. Ela sonhava em ser viver do próprio trabalho, não depender da renda de homem nenhum, ser dona do próprio nariz. PONTO Nº1 PARA MOLL FLANDERS! 

A personagem vai crescendo e tenta levar uma vida digna, honrada e tudo mais, mas nada da muito certo com essa mulher. Ela casa, mas o marido morre. Ela se vê numa situação delicada, ela não trabalha, não tem renda, não tem fortuna e agora não tem marido e é nessa parte que temos outro ponto muito bacana. Moll Flanders começa a dar dicas de como conseguir um marido, dicas de como ser uma mulher sedutora no século XVIII e é engraçadissímo. Ela começa a ensinar a fazer um charminho, ensina técnicas que fazem os homens correrem atras dela. E essas técnicas são ótimas porque veja só, ela casa de novo.  Mas de novo os casamentos não dão certo, ou por ser o irmão, ou o cara morre, ou qualquer outro infortúnio, os relacionamentos dela nunca vão pra frente.

Ela começa a envelhecer e as coisas vão descarrilhando cada vez mais. As tecnicas de sedução já não surtem tanto efeito e ela começa a se sentir muito desamparada e vai se enfiando em cilada atrás de cilada até que ela se vê ladra, prostituta, já foi amante, já cometeu incesto… a vida já é toda errada.

Esse livro é extremamente divertido. A narrativa te prende desde o começo, é aquele tipo de livro que você começa e não tem vontade de parar de ler. A gente fica curioso para saber como a Moll Flanders vai lidar com as situações, que saída ela vai encontrar pra cada problema. Apesar de ser um livro longo, a leitura não é nem um pouco cansativa. 

Eu achei incrível como o Defoe criou uma mulher tão interessante. Ele não diminui a personagem, nem fica atacando ela moralmente. Moll Flanders é uma mulher que quer sua independência, que é sedutora, é forte, é imoral e é muito inteligente, muito engenhosa. Acho que isso deixa o livro ainda mais divertido.

Nesse livro a gente vai conhecer quais os golpes aplicados nas pessoas, como era a sociedade, os relacionamentos, vai ter também um pouco sobre a questão da colonização dos Estados Unidos e como as coisas funcionavam por lá e também como era a justiça da época.

Esse livro faz parte da coleção Nova Prosa do Mundo da finada Cosac Naify (saudade Cosac) e no final traz alguns ensaios sobre o livro. Uma coisa que apareceu em todos os ensaios é sobre a solidão da Moll Flanders e realmente isso chama muito a nossa atenção. Desde o início da vida a Moll Flanders não teve muito com quem contar. Ela encontra pessoas boas pelo caminho, faz algumas amizades, mas nunca são relações duradouras. Ela tem filhos, mas não vive com eles, os amigos se perdem sempre que ela se vê solteira, os maridos vão embora, ou morrem ou seja o que for. Ela sempre depende muito dela. A impressão que a gente fica é que ela carrega um vazio dentro dela e que ela vai se metendo em várias situações bizarras para tentar preencher esse vazio ou pelo menos esquecer que ele ta ali.

Eu me apeguei muito a Moll Flanders e sofri junto com ela com o medo da prisão. O Defoe realmente viveu em Newgate e essa parte do livro é tão real e crua que deixa o leitor bastante comovido. A que preço a justiça era feita na Inglaterra daquela época? As pessoas eram enforcadas com uma facilidade, que a vida chega a ser banalizada. É triste acompanhar a realidade daqueles presos. E também é triste porque a gente acaba acompanhando os problemas sociais da época, durante a leitura  a gente vê o processo de marginalização da população. O leitor consegue entender porque aquelas pessoas foram parar ali e vê o quanto o sistema judicial era (era?) falho.

Moll Flanders é um livro de ficção, mas ela podia ser qualquer mulher daquela época. Ela é uma personagem extremamente bem construída e muito real.

Eu adorei muito mesmo esse livro, provavelmente ele vai entrar para a minha lista de melhores leituras do ano, e eu torço muito para que alguma editora publique Moll Flanders. Eu achei Moll Flanders um livro tão rico, eu queria que ele fosse um pouco mais discutido.

Por enquanto se você se interessar, ainda tem como comprar esse livro físico na Amazon e também tem a versão em e-book. Esse título agora está disponível também para o Kindle Unlimited, junto com vários outros livros muito bons da cosac ♥

Moll Flanders foi publicado pela Cosac Naify e tem 512 de história de uma personagem que é bela, mas não é nada recatada e do lar (já viu minha lista com as Belas, recadas e do lar na literatura?)

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