Tapa na cara dem forma de livro: Desonra – J.M.Coetzee

 

Várias vezes as pessoas me perguntam que tipo de livro eu gosto de ler e eu sempre respondo que é difícil dizer um gênero que represente o meu gosto, mas eu gosto de livros que me façam pensar. Quando eu digo isso as pessoas já acham que eu gosto de leituras complexas, que eu tenho que me esforçar para entender o que o autor quis dizer e não é nada disso. Muitas vezes um livro que me faz pensar, tem uma linguagem super simples, muito fluida, mas tem alguma coisa ali no meio que me toca de uma maneira diferente e me faz refletir sobre algum assunto. Desonra é um desses livros.

Com uma escrita simples, extremamente clara, uma estrutura de texto que faz com que a leitura tenho um ritmo acelerado, Coetzee me prendeu desde os primeiros parágrafos. 

Eu recebi esse livro pela TAG em Fevereiro e eu fiquei extremamente empolgada e quis ler logo, mas esperei a minha ressaca literária passar para começar essa leitura.

Esse livro fala sobre os nossos valores pessoais, sobre ética, sobre moral, sobre respeito e sobre a alma humana.

Desonra vai contar a história de David Lurie. David tinha 50 e tantos anos, era um professor de literatura em uma universidade da Cidade do Cabo, divorciado e que achava que a vida podia ser muito simples. Ele era um professor insatisfeito com seus alunos, ele não ensinava mais literatura, seus alunos não apreciavam mais os clássicos, agora ele dava aula de comunicação para alunos que não se dedicavam tanto assim. A vida pessoal dele também era um tanto vazia e solitária, mas na cabeça dele estava tudo bem. Como ele tinha religiosamente toda semana, no mesmo horário, um encontro com uma prostituta, ele considerava que seus problemas sexuais estavam resolvidos.

Vamos falar num português bem claro? A impressão que eu tive de David Lurie desde o incio é que ele era o que eu chamo de velho nojento. Sabe aqueles caras que parecem pensar que as pessoas tem a obrigação de satisfazer a vontade deles? Uma pessoa egoísta, sem empatia nenhuma? É assim que eu enxergo o Lurie.

A historia do livro começa de fato quando ele se envolve com uma aluna. A moça, que na cabeça dele estava meio sem graça e quase se aproveitando da situação, abre um processo contra o professor por assédio. Esse processo marca o fim da carreira acadêmica de Lurie. Desempregado, ele resolve ir visitar a filha no interior e esfriar um pouco a cabeça.

A partir desse ponto eu não vou contar detalhes da história por não querer ser xingada por causa de spoiler. Talvez isso prejudique muito o meu texto, mas vou tentar falar sobre minhas impressões sem falar sobre o resto da historia do livro.

A beleza de Desonra é que o livro consegue tocar em vários assuntos importantes sem deixar o livro maçante. Muito pelo contrário, esse livro é extremamente viciante e a leitura é muito gostosa. Você se envolve com tanta intensidade com os personagens, que você passa a viver os mesmos conflitos que eles.

Logo no começo do livro eu fiquei pensando sobre algumas coisas que o Lurie fala sobre a universidade. Ele questiona os rumos da educação, ele se pergunta sobre o modelo de estrutura da universidade. Logo depois já passamos para o tema de assédio, ética do professor, abuso de poder, abuso da mulher. O autor consegue colocar vários pontos de vistas diferentes através de personagens que debatem a situação. Aquele famoso machismo velado aparece bastante aqui. Na segunda parte do livro temos muito sobre a cultura sul africana. Vale lembrar que a história se passa num pós aparthaid e as feridas ainda estão muito abertas.

A filha de Lurie é uma mulher branca, que pelo pouco que ele descreve não se encaixa nos padrões de beleza e lésbica. Ela administra sozinha uma fazenda em que ela cuida de plantas, Cicadáceas, e de um canil. Essa fazenda é quase uma ilha dessa moça. Ela é a única mulher que toma frente de uma fazenda, ela é praticamente a unica branca da região e tudo isso chama muita atenção dos outros moradores. Nesse contexto o Lurie não consegue se encaixar e vai precisar aprender muito sobre essa cultura e o estilo de vida da filha.

Esse contraste entre a vida urbana e acadêmica do Lurie com a vida no interior, simples, numa fazenda é o primeiro espelhamento do livro. Esse é o primeiro choque de realidade que o protagonista sofre.

Nessa parte do livro o Lurie vai entrar em vários conflitos morais. A vida dele na cidade é o oposto da vida dele no campo. É bem difícil explicar sem contar o que acontece por lá, mas várias situações vão se espelhar e vão trazer muito incômodo e desconforto para o Lurie.

Como eu falei o livro aborda muitos assuntos importantes. A gente vai encontrar a questão da educação, violência contra mulher, a rotina da vida do campo, relações pessoais (principalmente entre pais e filhos), a questão animal também é bastante discutida. Todos esses assuntos aparecem no livro de uma maneira muito natural, tudo se encaixa muito bem, mas as coisas vão acontecendo de tal maneira que você fica pensando por muito tempo sobre cada um desses pontos. Você quer entender a postura das personagens, mas também fica pensando em como você, com os seus valores e a sua visão de mundo, lidaria com as mesmas situações. Eu acho genial quando um livro consegue fazer isso.

Desonra é viciante sim, você não quer parar de ler, mas nem por isso ele é um livro que não deixa sua marca. Esse é um daqueles livros que você vai ficar remoendo tudo o que leu durante muitos dias. Em momentos aleatórios do seu cotidiano você vai lembrar de alguma cena do livro e vai ficar analisando toda a situação.

Ter recebido esse livro na TAG foi maravilhoso. Além de ser um livro incrível, a TAG vende uma experiência de leitura diferente de qualquer outra que você já teve. Terminar de ler esse livro e ler a revista da TAG em seguida é muito enriquecedor. Na revista você encontra mais informações sobre a vida do Coetzee, sobre a cultura da África do Sul e de quebra ainda ganha algumas boas indicações de outros autores africanos que merecem um lugar na sua estante. Além da revista a sua experiência de leitura fica mais completa ainda com o vídeo da resenha do Yuri (blog/canalcanal Livrada) lá no canal da TAG. E é por isso que eu digo, eu sei que a TAG não é barata, mas o que você quer, um livro novo ou uma experiência nova? Acho que vale a pena investir nessa caixinha que é só amor. (Lembrando que já falei sobre a TAG nesse post aqui)

Desonra foi publicado pela Companhia das letras e tem 246 páginas de muita dor e soco no estômago.


Com esse livro eu cumpri mais uma categoria do Desafio Livrada 2016. Para saber mais sobre o desafio e o meu progresso, é só clicar aqui.

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