As personagens “Belas, recatadas e do lar” na literatura

Essa semana a Veja fez uma matéria falando sobre como Marcela Temer é um exemplo para as mulheres brasileiras por ser “Bela, recatada e do lar”. Acho que eu nem preciso dizer o quanto essa matéria foi machista e desnecessária.

Não tem problema nenhum em ser recatada, não tem problema nenhum em ser do lar, mas o problema é impor um padrão a ser seguido.

Sendo assim resolvi fazer uma pequena lista com mulheres que não seguiram os padrões na literatura. É uma lista bem simples e com certeza vou deixar muitas personagens de fora. Se você lembrar de mais alguma, não esqueça de deixar ai nos comentários.

Emma | Madame Bovary – Gustave Flaubert 

Emma era uma jovem da burguesia francesa que sonhava com uma vida linda e feliz como ela lia nos romances. Mas ao se casar com um médico ela se vê deprimida e muito sozinha, uma realidade muito distante da que ela sonhava.

Ao contrário de todas as expectativas da época, Emma não aceitou esse destino e foi atrás da própria felicidade. Emma ofendeu a moral e os bons costumes por viver um adultério.

Elizabeth Bennet | Orgulho e Preconceito – Jane Austen 

Lizzie cresceu em uma família sem muito dinheiro, com mais 4 irmãs. O sonho da mãe delas era ver as filhas bem casadas e faria de tudo para isso.

Apesar de muitas garotas da mesma idade que Lizzie também sonharem com casamentos vazios, sem amor, mas com um marido que pudesse sustentar a moça, Lizzie se recusava a se sujeitar a uma relação sem sentido. Ela recusou pretendentes e lutou para que ela e as irmãs pudessem viver de forma digna e com alguém que elas amassem.

Anna Karenina | Anna Karenina – Tolstói

Anna pertencia a aristocracia da Russia Czarista. Ela considerada uma mulher bonita, elegante e era popular na sociedade. Apesar de ter todas essas qualidades e ter também um marido e um filho muito amado, Anna se vê apaixonada pelo Conde Vronsky.

Esse amor acaba sendo a sua ruida. Anna se divorcia, perde a guarda do filho, mas se entrega completamente a essa paixão.

Apesar de sua história ser bastante triste, Anna teve força para abrir mão de sua família e da vida em sociedade. Ela sabia que uma mulher divorciada era muito mal falada, não ia ter garantia nenhuma no futuro e não poderia mais ter as mesmas amizades, mas mesmo assim ela quebra os padrões e vive sua paixão com o  Conde Vronsky.

Moll Flanders | Moll Flanders – Daniel Defoe

A personagem principal desse livro (não sabemos o nome verdadeiro dela) sonhava em ser uma dama desde criança. E para ela ser uma dama era ser uma mulher independente, que se sustentava com o dinheiro do próprio trabalho. Depois de adulta a vida dela toma caminhos um tanto complicados e ela passa a ser ladra e prostituta.
Definitivamente Moll Flanders não é o tipo de mulher que era o exemplo da sua geração.

As irmãs Lisbon | As virgens suicidas – Jeffrey Eugenides

Na verdade as irmãs Lisbon entraram na lista mais como vítimas da repressão.

Therese, Lux, Mary, Bonnie e Cecilia Lisbon foram criadas de maneira rigida, sem liberdade e sempre sendo muito vigiadas pelos pais. As meninas não podiam sair com os amigos e quando não estavam na escola, só podiam sair usando roupas muito sem graça costuradas pela mãe.

Mesmo crescendo nesse ambiente sufocante e duro, as meninas chamavam muita atenção por sua beleza. Na adolescência elas sempre tentavam conseguir alguma liberdade. Uma das meninas, Lux, chega a se rebelar e tem relações sexuais com vários homens diferentes durante a noite no telhado da casa da família Lisbon.

Toda a repressão que as meninas sofreram em vez de fazer bem, acabou levando elas ao suicídio.

O livro já começa falando que todas as irmãs se suicidaram e ao longo do livro vamos acompanhando o caminho de cada uma das meninas.

O amante – Marguerite Duras

No romance autobiografico, acompanhamos a iniciação sexual de uma garota de 15 anos e meio.

Uma garota que cresce em um pensionato só para meninas, se envolve com um homem 12 anos mais velho.

O livro conta detalhes da vida dessa garota, da relação dela com a família (que era completamente desestruturada) e como ela conheceu seu amante.

A sexualidade dessa adolescente é descrita em muitos detalhes. Sabemos todas as cenas dos encontros dos dois e também os pensamentos e sentimentos da jovem.

Se isso já não é quebra de padrões, ainda temos algumas cenas em que ela descreve uma leve atração que sentia por uma das amigas.

Aibagawa Orito | Os mil outonos de Jacob de Zoet – David Mitchell

Aibagawa Orito era uma jovem que vivia no japão no final do século XVII. Ela não tinha uma família com posses, tinha uma grande cicatriz de queimadura no rosto e por isso não era considerada um bom partido.

Ao contrário das moças da época, ela não sonhava com um marido. O que ela realmente queria era estudar medicina e ser parteira. Ela acaba indo estudar em uma feitoria em uma ilha artificial em Nagasaki. Unica mulher da turma, seu trabalho logo passa a ser muito reconhecido.


Essa lista poderia ser muito maior na verdade. Podia ter falado também sobre Bonequinha de Luxo, sobre a polêmica toda de Capitu e como ela foi julgada pelo marido por não seguir um modelo de mulher submissa. Na verdade eu poderia falar sobre muitas outras.

Temos vários exemplos também no mundo dos quadrinhos, como já falei no post sobre o quadrinho Vírus Tropical da Power Paola, tem também as heroínas de Watchmen Sally Jupiter e sua filha Espectral. Agora também temos aquela personagem linda que é a Kamala em Ms Marvel. Enfim a lista é enorme!

Várias mulheres fortes, que fazem o que querem e não se preocupam em seguir padrões ♥

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15 comentários sobre “As personagens “Belas, recatadas e do lar” na literatura

  1. Muito legal seu post, Nat!
    Achei que falar de literatura para abordar esse tema bem legal, porque tudo o que vai literatura fica ótimo né? =D

    Ah, só uma correçãozinha, a Lux não é a mais velha das irmãs Lisbon, é a segunda mais nova. 😉

    Beijins!

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  2. Olá! Vi um link para esse post no G+, e vim correndo para ler! Entre as mulheres que você citou, eu já sabia da Emma e da Elizabeth, apesar de não ter lido os livros. Um bom exemplo também é a Gabriela, de Gabriela Cravo e Canela, do Jorge Amado.
    Adorei o post, foi muito bom você ter percebido a necessidade de abordar esse assunto!

    Curtido por 1 pessoa

  3. Tem a inesquecível Maria Moura, de “Memorial de Maria Moura”, uma mulher que deixou tudo pra trás e se tornou bandida, pra conquistar a independência e não ser obrigada a casar com um dos primos.

    Tem a Rosana, a Ana Clara e a Lorena, de As Meninas – uma é apaixonada por um homem casado, outra se mete com um guerrilheiro e outra é viciada em drogas.

    Se personagens infantis e infanto-juvenis estão valendo, tem a Emília do Monteiro Lobato e a Vivi Pimenta de Ganimedes José, que nada tem de “meninas boazinhas”.

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  4. Salvando aqui esse post para compras futuras. Já estava de olho em “Madame Bovary”, mas quanto aos outros, ainda não havia me interessado. Até agora.
    Leiamos mais personagens belas, recatadas e do lar!!
    Amei o post. Beijos!!

    (Carol)
    ourbravenewblog.weebly.com

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  5. Ei Nat 🙂
    Descobri seu blog através desse post, que achei sensacional, e agora cá estou eu olhando o blog inteiro hehehe Muito interessante a conexão que você fez com a notícia e as personagens da literatura! Me interesso muito na leitura de obras com personagens femininas fortes e que fogem dos padrões sociais e várias delas já tinha ouvido falar, apenas a Aibagawa Orito que não.
    Um beijo! :*

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    1. Oi Mari, fico feliz que vc gostou do blog!
      Dos livros que eu coloquei nessa lista, Os mil outonos de Jacob de Zoet é o menos comentado mesmo. Esse livro é mto bom, mas quase nunca vejo as pessoas falarem sobre ele. Aproveitei a oportunidade pra reforçar que ele merece uma chance sim 😛

      Beijos

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    1. Estou lendo Moll Flanders no kindle e tô viciada no livro. Tô gostando bastante!
      Nessas horas só dá mais saudade ainda da Cosac 😦

      E que bom que gostou Isa! Acabei de ver que vc deixou lá no snap! ❤❤❤
      Beijos

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