O deus das pequenas coisas – Arundhati Roy

Acho que eu já escrevi uns 100 inícios diferentes para esse post e não gostei de nenhum. É sempre muito mais difícil falar sobre livros que mexem muito com a gente, então vou parar de enrolar e ir logo ao assunto ok?

O deus das pequenas coisas foi uma leitura muito intensa e muito diferente do que eu esperava. Eu acredito que um dos motivos para a minha experiência com esse livro ter sido tão intensa foi esse livro ter conversado muito com outros livros que também mexeram muito comigo.

O deus das pequenas coisas é um daqueles livros que falam sobre toda uma família, cheia de problemas e diferenças. A história é contada pelo ponto de vista de duas crianças Estha e Rahel.

Estha e Rahel são gêmeos bivitelinos. Assim que comecei a ler o livro e conheci os gêmeos pensei que eu li muito livros com gêmeos nos últimos tempos, e todos foram muito marcantes pra mim. Esse foi mais um pra lista.

Apesar de serem gêmeos bivitelinos, Estha e Rahel tem a mesma conexão de Halla e Sigridur, as irmãs gêmeas de A desumanização. O que acontece com um gêmeo afeta o outro, os pensamentos são os mesmos, eles vivem as mesmas sensações. É praticamente como se eles fossem uma só pessoa.

A história deles se passa na Índia da década de 60, a mesma índia de Subhash e Udayan, os gêmeos de Aguapés. Uma Índia que se diz livre da influencia da Inglaterra, uma Índia cheia de desigualdades e problemas sociais, onde as castas ditam o comportamento das pessoas.

Estha e Rahel são filhos de um casamento que não deu certo. Um casamento que na verdade representava a fuga de Ammu. Estha, Rahel e Ammu parecem nunca ter um espaço real dentro da família. Eles precisam conviver coma  avó cega, que já tem bagagem demais e não se envolve em quase nada, o tio Chacho que se sente superior ao resto da família por ter estudado fora e Baby Kochamma, uma mulher amargurada por não ter vivido um amor e que sempre manipula as pessoas.

A história deles já poderia ser pesada e quebrada o suficiente, mas tudo muda muito depois da chegada da prima de mesma idade que Estha e Rahel, Sophie Mol.

Enquanto Estha e Rahel são os filhos de uma união falida, são um fardo, o símbolo de um erro, Sophie Mol é a filha de Chacho. Ela também é filha de um casamento que não deu certo, mas foi um casamento entre uma mulher inglesa e um indiano. Uma criança loira, branca, sem contato nenhum com a Índia e seus conflitos, uma criança sem machas. A chegada dela é um evento de grande importância para a família, todos se mobilizam e se esforçam para receber da melhor forma possível essa criança.

A chegada de Sophie Mol desencadeia uma série de acontecimentos que vão culminar na separação dos gêmeos. O livro começa em 1992 com os gêmeos cheios de cicatrizes do passado, se reencontrando depois uma longa separação. A conexão entre eles já não existe da mesma forma, eles já não sabem mais lidar um com o outro.

Não existe uma linearidade na história, o passado e o futuro se misturam, o tempo avança e retrocede de forma delicada para nos explicar como aconteceu a separação dos irmãos.

Eu não vou dar nenhum detalhe do que acontece nesse livro, mas é uma história muito triste, muito sensível e muito perturbadora.

Algumas coisas chamam muito a atenção, relação das mulheres da família é uma delas. É uma relação muito agressiva. Algumas mulheres da família silenciam outras, o tempo todo os diálogos são pensados para machucar, para jogar alguma coisa na cara. Me lembrou um pouco a relação das mulheres da família dos gêmeos Omar e Yaqub, do livro Dois Irmãos. Enquanto Zana tampa o sol com a peneira e se ilude achando que está tudo sob controle, ela silencia Domingas. Domingas vive na sombra da família do mesmo jeito que Ammu. Zana impõe a vontade dela e chantagiando o resto da família constantemente, assim como Baby Kochamma. Na verdade Baby Kochamma é muito mais agressiva do que Zana, mas o egoismo das duas acaba corroendo a família inteira e tem consequências horríveis.

Outro momento de O deus das pequenas coisas que conversa com Aguapés, em ambos os livros temos personagens envolvidos com o movimento  Naxalista. Em o Deus das pequenas coisas o movimento  Naxalista é mais abordado. Existe um personagem que se filia ao partido comunista e que é da casta mais baixa, os Intocáveis. Esse personagem tem uma ligação muito forte com os gêmeos. As crianças adoram ele, ele trata os dois com muito carinho. As crianças são as únicas pessoas que olham para ele com igualdade e respeito, e existe muita reciprocidade entre eles. É muito bonita e dolorida a história desse personagem.

O deus das pequenas coisas é sobre sensibilidade. É sobre a força das palavras, dos nossos sentimentos, sobre como a maneira como lidamos com as situações interferem no nosso futuro. Pequenas decisões, pequenos acontecimentos podem mudar para sempre a nossa vida. 

Eu acho que eu não consegui falar sobre o quanto esse livro é lindo e o quanto ele mexe com o leitor. Ele é desses livros que é uma experiência de vida, que te sensibiliza e te deixa pensando por dias em tudo o que aconteceu com as personagens e como aquelas situações se refletem na sua vida, na nossa sociedade, nas nossas escolhas.

O Deus das pequenas coisas foi publicado pela Companhia das letras, hoje em dia faz parte da coleção Companhia de bolso e tem 360 páginas.

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4 comentários sobre “O deus das pequenas coisas – Arundhati Roy

  1. Adorei o modo como você falou sobre esse livro. Lembro que, na época da faculdade, havia pouco espaço para as diferentes literaturas pertencentes à língua inglesa, então houve apenas um seminário sobre esse livro e as pessoas do grupo comentaram como era algo tocante. Por meio das suas palavras também pude perceber isso. Esse é o tipo de texto que faz a gente aumentar a estante e a fila de livros… rs
    Bjos!
    Obs. Adorei o nome do blog, demais!
    http://1pedranocaminho.wordpress.com

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    1. Aaah fico muito feliz que o post te deixou curiosa. Quando falo sobre um livro que mexeu muito comigo fico me sentindo insegura, com medo de não ter passado a ideia de que o livro merece muito uma chance.
      Espero que vc leia e que goste muito.
      Hahah e obrigada tb pelo elogio quanto ao nome do blog!
      Beijos

      Curtido por 1 pessoa

  2. Olá Nat 🙂
    Foi a primeira vez que ouvi falar sobre esse livro e achei lindo as conexões que você fez com outras obras, me despertou o interesse ainda mais nessa, já que possuo todas as outras (e estão na lista de leituras próximas).
    Fiquei muito curiosa sobre a relação entre os gêmeos das obras e nunca tinha visto nada sobre essa “conexão” que pode haver entre eles.
    Um beijo :*

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    1. Essa parte da conexão dos gêmeos é muito discutida no livro A desumanização. Em O deus das pequenas coisas tb aparexe bastante, mas no livro do Valter Hugo Mãe é um dos pontos centrais da história.
      Eu sempre gosto muito quando um livro me faz pensar em outro. Essa bagagem literária que a gente vai acumulando só melhora as nossas experiências de leitura!

      Beijos

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