Dose dupla: obra original e adaptação em quadrinhos de Dois Irmãos

Eita post que demorou para sair! Eu li esse livro no comecinho de Dezembro e desde então estou me corroendo de ansiedade para falar dele aqui no blog. Dois Irmãos foi uma enorme surpresa e já começo falando que entrou pra lista de livros-preferidos-da-vida.

Talvez o post fique meio bagunçado, mas tente acompanhar minha linha de raciocínio. Juro que ela existe. Em 2015 os gêmeos Moon e lançaram o livro Dois Irmãos, que é uma adaptação do livro de mesmo nome escrito por Milton Hatoun. Desde que começaram a falar sobre esse quadrinho eu fiquei muito ansiosa e queria demais ler a adaptação. Confesso que não me animava muito a ideia de ler o original primeiro. Mas fui adiando, fui adiando e ai eu ganhei de um amigo o livro do Milton Hatoun e pensei “Isso deve ser um sinal”. Mentira, não pensei isso, mas resolvi começar então pela obra original e gente, que livro mais maravilhoso!

Eu aqui, cheia de preconceitos, ouvia as pessoas falando sobre Dois Irmãos e pensava “Irmãos gêmeos brigando, durante um livro todo, deve ser uma versão literária de Ruth e Raquel… pra que ler?”. Amo morder a língua. Esse livro é sensacional, é muito mais do que o conflito entre dois irmãos. 

O plano de fundo realmente é o conflito dos irmãos, mas nesse livro vamos acompanhar todo o desenvolvimento de Manaus desde o final da segunda guerra mundial até o final da década de 1960, mais ou menos. Nós vamos conhecer a realidade da ditadura brasileira fora do eixo Rio- São Paulo. Também vamos acompanhar os costumes da região, como as crianças se divertiam, como os adultos se divertiam, os imigrantes, enfim, como funcionava aquela sociedade.

Além disso, de Ruth e Raquel os irmãos dessa história não tem nada. Enquanto em mulheres de areia Ruthinha é boa e Raquel é má, em Dois Irmãos Omar é folgado, mulherengo, boa vida, mas Yaqub não é lá flor que se cheire também viu? O conflito familiar é muito real e muito cru. Chega a incomodar de tanto que o autor não suaviza em nada a relação deles.

Calma, se você não sabe nada sobre esse livro e entendeu em torno de nada do que eu falei até agora, vamos contextualizar. Dois Irmãos conta a história de Omar e Yaqub, irmãos gêmeos, com poucos minutos de diferença, que desde crianças não conseguem se entender. Eles são os filhos mais velhos de um casal de imigrantes libaneses. O pai deles, Halim, era apaixonadíssimo pela esposa, Zana, e sonhava em viver uma vida cheia de amores calientes com a amada enquanto Zana sonhava em encher a casa de filhos. Muito contrariado ele sempre acabava sedendo as vontades da esposa e ai nascem os gêmeos e a filha mais nova, Rânia.

Durante todo o livro a família tenta unir Omar e Yaqub, mas a mágoa e o ódio entre eles só aumenta. Halim não queria ser pai, ele se esforçava e cuidava da família o melhor que podia, mas o que ele realmente queria era cuidar da lojinha em paz, aproveitar o tempo com os amigos e principalmente amar muito, a todo momento e em todo lugar, sua esposa. Rânia nutria um sentimento intenso pelos irmãos, fazia de tudo para agradar o dois. Zana foi quem mais me irritou nessa família. Omar nasceu pouco minutos depois de Yaqub e por isso era chamado de o filho caçula. Logo nos primeiros dias ficou bem doentinho e desde então ganhou uma proteção absurda da mãe. A Zana sempre se negava a ver os erros do filho mais novo.

No meio dessa bagunça toda temos o nosso narrador, que no começo não sabemos ao certo qual é a relação dele com a família, mas aos poucos tudo vai se esclarecendo, e temos também uma personagem maravilhosa que é a Domingas. Ela foi “adotada” pela Zana e o Halim, antes de os gêmeos nascerem e ela trabalhava na casa ajudando a cuidar das crianças e ajudando nas tarefas domesticas em geral. Ela nunca foi tida como um membro da família, apesar de sempre viver na casa e ter uma relação próxima com todos, ela era a empregada da casa e tinha que saber muito bem qual era o seu lugar.

Domingas, Halim e o narrador foram os personagens que me fizeram amar com todas as forças esse livro. O Halim é incrível. Ele é muito sincero, e muito doce. Apesar de ser muito amargurado por causa de todos os problemas causados pelos filhos, ele sempre fala da família com muito carinho e sempre se esforçou muito para manter tudo em equilíbrio. A relação de Domingas com Yaqub também é muito bonita e me emocionou bastante. Alias, a historia de vida da Domingas como um todo é muito emocionante.

Não quero falar mais sobre a história pra não entregar nada. Mas esse livro é muito intenso, muito forte e foi uma daquelas leituras que deixam saudade.

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E por isso tudo foi muito maravilhoso pegar o quadrinho para ler depois de um mês que eu tinha terminado o livro original. Foi muito gostoso matar a saudade dos personagens e me sentir em Manaus passando calor deitada na rede e comendo peixe.

Eu gostei muito da adaptação. Assim como qualquer outra adaptação, nos quadrinhos nós temos o essencial da história, mas muitos detalhes se perdem. Isso é inevitável. São formatos diferentes e propostas diferentes. Nos quadrinhos eu não senti tanta raiva da Zana e nem em apeguei tanto ao Halim. Mas meus sentimentos pelos gêmeos e pela Domingas voltaram com força total.

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E nos quadrinhos o que mais me chamou a atenção foi a paisagem manauara. O Moon e o Bá passaram um tempo em Manaus, foram nos principais pontos da cidade que aparecem no livro e retrataram o cenário lindamente. Eu fiquei apaixonada demais pela cidade nos quadrinhos.

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Mas se eu fosse recomendar uma ordem de leitura, eu acho que comigo funcionaria melhor ler primeiro a HQ e depois o livro. No quadrinho você tem uma visão bem geral dos fatos, mas no livro vem uma enxurrada de sentimentos e o leitor ainda vai se surpreender com muita coisa.  Mas essa é a minha opinião, sei que a maioria das pessoas prefere começar pela obra original. Ai tem que ver o que você geralmente prefere.

Dois Irmãos foi publicado pela Companhia das Letras e a adaptação é do selo Quadrinhos na Cia. A obra original tem 272 páginas na edição de bolso e o quadrinho tem 232. E sim, você vai ler as duas versões e vai amar muito as duas.

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4 comentários sobre “Dose dupla: obra original e adaptação em quadrinhos de Dois Irmãos

  1. Acho os irmãos tão chaaaatos e pedantes.
    Grandes artistas gráficos, extremamente competentes, mas falta ao argumento deles peso para dar dimensão à toda a dimensão etérea e surreal que eles tanto gostam de estabelecer.
    Estão ainda bem longe de um Will Eisner ou Chris Ware…

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