Ele não é só um rostinho bonito – Os mil outonos de Jacob de Zoet – David Mitchell

Vou começar o post dessa semana contando uma historinha. Por muito tempo, toda vez que eu ia na livraria Saraiva eu sempre passava por um determinado livro e toda vez eu pegava esse livro, ficava namorando aquela capa, achava o título um tanto chamativo, mas não sei, a sinopse não me convencia. Toda vez eu via essa capa linda, branca, com desenhos muito lindos em azul e ficava pensando como ele seria lindo na minha estante, mas será que eu ia gostar de ler esse livro? Sobre uma feitoria holandesa no Japão, uma historia sobre comercio, sobre expedições marítimas e será?

Os mil outonos de Jacob de Zoet

Fiquei com essa duvida por muito tempo, mantendo essa paixão platônica por causa da capa bonita, até que vi um post da Camila Von Holdefer, do blog livros abertos, falando sobre esse livro e ela elogiou bastante e ai eu me entreguei a esse amor. E que bom que eu me entreguei!

Esse livro é bem diferente do que eu sou acostumada a ler. Eu nunca li nada desses livros que se passam no mar. Sabe, o Velho e o Mar, O lobo do Mar, Moby Dick, nada disso nunca foi lido por essa pessoa que aqui escreve. Então esse livro me apresentou um mundo um pouco novo. Ok, o grosso da história não se passa em navios, apesar da vida nos navios ter uma grande importância para o contexto da história o foco da narrativa acontece em terra firme, mas… calma, já vamos chegar lá.

Os mil Outonos de Jacob de Zoet vai contar a história de Jacob de Zoet (oh, que inesperado) que foi contratado para investigar a situação de uma feitoria em uma ilha artificial no Japão. A história começa em 1799 e na época o Japão era muito fechado e não fazia comércio com ninguém, evitava ao máximo entrar em contato com outras culturas, não aceitava de forma alguma outras religiões, enfim a situação era bem delicada. Mas existia essa ilha artificial em Nagasaki em que os holandeses conseguiram instalar uma feitoria e fazer comercio com os japoneses. Ali todos os holandeses sonhavam em fazer fortuna, cada um do seu jeito. Alguns com contrabandos, outros tentando ser honestos… cada um comia por um lado, mas todos queria a mesma coisa, voltar rico para a Europa.

O livro tem muitos personagens e por mais que eu não goste de todos eles, eu amei conhecer a historia de cada um. O autor conseguiu detalhar o passado de cada figura importante de Dejima de uma forma muita espontânea, muito divertida. Eles se juntavam pra jogar cartas, pra jantar ou em alguma reunião pra mostrar quem é que manda ali e no meio dessas ocasiões a gente conhecia um pouco mais das personagens. A grande maioria dos homens de Dejima foram parar na ilha por trabalhos forçados em navios. As unicas exceções são homens de cargos mais altos e o médico Marinus, que ensina medicina para um grupo de estudantes de Nagasaki.

O começo da história é bem monótono, porque vai tratar da chegada de Jacob de Zoet, como ele fi recebido, qual era a situação em Dejima, quais eram os costumes das pessoas que moravam por ali, como era a politica. Mas apesar de não ser um tema tão empolgante, o autor consegue prender facilmente a atenção do leitor. O mais legal do começo do livro são os diálogos.  Aos poucos o autor vai desviando o nosso foco, vai conduzindo o leitor para uma grande virada na história. 

Logo no primeiro capitulo vamos conhecer uma personagem muito importante, que é uma parteira de Nagasaki, chamada Aibagawa Orito. No começo do livro ela foi uma das personagens que mais me cativaram, por ser parteira, por estudar medicina em Dejima com um holandês e ser a unica mulher da turma e porque ela é um tanto misteriosa no começo. Mas na segunda parte do livro ela vira o grande centro das atenções.

Enquanto a primeira parte do livro é muito politica e mais monótona, na segunda parte vamos encontrar uma história cheia de intrigas, perseguições, lutas de samurais, seitas secretas e muita aventura. 

O ritmo do livro fluta bastante, mas aos poucos fica mais divertido e descontraído. Depois de toda a aventura da segunda parte do livro, voltamos a ter uma história muito emocionante quando chega uma fragata inglesa na ilha.

Eu gostei demais desse livro. Apesar de ter um tom mais divertido em alguns momentos o livro toca em muitos assuntos bacanas. O leitor vai encontrar muitos temas em um unico livro. Logo no começo falamos sobre corrupção, abuso de poder, subornos… Mas também vamos conhecer um tanto da medicina da época, tem cenas muito fortes envolvendo os escravos dos holandeses, nós vamos saber tanto o ponto de vista europeu da escravidão, quanto o ponto de vista de um dos escravos. O livro também vai falar sobre a cultura japonesa, sobre diferentes religiões, o espaço que a mulher ocupava na sociedade japonesa, como era a politica japonesa, enfim, muita coisa. E também tem um pano de fundo histórico muito bacana, porque o livro comenta sobre as guerras napoleônicas, que vão ter um impacto grande em Dejima.

Além de tudo o livro tem várias passagens muito bacanas que eu adorei e o momento em que explica o título do livro merece até um coraçãozinho

A leitura foi sofrida, não vou negar, porque algumas cenas foram de revirar o estômago. O primeiro capítulo desse livro é fortissimo, com cenas bem pesadas de um parto realizado pela Aibagawa e eu juro que aquela cena toda doeu em mim.

A edição é muito linda. A capa é maravilhosa, a contra capa também é linda e no meio do livro tem algumas poucas ilustrações, mas elas dão um charme a mais para a história. Eu fiquei feliz demais por ter me rendido a essa paixão platônica e ter conhecido uma história tão boa. A escrita do autor também é fantástica. Os parágrafos são bem curtos, assim como a grande maioria das frases. A leitura acaba sendo muito mais rápida e dinâmica. Devo alertar que esse livro parece inocente, mas vicia.

Essa foi a minha ultima leitura de 2015 e entrou fácil, fácil para a lista de melhores livros do ano. Foi muito bacana mesmo. Tanto que eu fiquei chata e só sabia falar sobre esse livro durante o mês de Dezembro quase que inteiro.

Lembrando o obvio, que falei aqui super apaixonada sobre esse livro porque eu tive uma experiência de leitura maravilhosa. Mas experiência de leitura é uma coisa muito pessoal, depende dos seus interesses, seu momento de vida, sua bagagem pessoal e tantos outros fatores. Mas eu realmente vou recomendar esse livro pra todo mundo por muito tempo. Eu acho que vale a pena demais dar uma chance e se render a esse livro que me chamou tanto nas livrarias da vida.

Os mil outonos de Jacob de Zoet foi publicado pela Companhia das letras, com tradução do Daniel Galera e são 568 páginas de muito vicio. Livro mais que recomendado.

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