E vamos começar de Russos – Pais e Filhos – Ivan Turguêniev

E depois de uma longa espera, depois de muito enrolar vocês com textos aleatórios, chegou o grande dia, o dia que voltam os posts sobre os livros que eu li. E não tinha como começar melhor, então vamos começar por literatura russa e vamos começar por livros da Cosac Naify. Não é porque a Cosac está ai fechando as portas (já falei sobre esse assunto aqui) que vamos parar de falar sobre os livros maravilhosos que a editora publicou não é mesmo?

Pais e filhos já chega impressionando pela beleza da edição. O título faz parte da coleção Prosa do Mundo e tem capa dura, uma folha de guarda maravilhosa cinza com Prosa do mundo em marca d’água, foto do autor e 3 apêndices, sendo um do próprio autor. Mas esse livro não é só um rostinho bonito. Como o nome sugere, pais e filhos vai tratar do choque de gerações. Vai falar sobre como as ideias vão mudando e como cada geração vai se adaptando aos novos contextos.

Primeiro somos apresentados aos irmãos Nikolai Petróvitch e Pável. Na juventude se esperava que os dois irmãos seguissem uma carreira militar, mas só Pável foi por esse caminho. Nikolai teve alguns problemas de saúde e acabou se casando e virando um proprietário de terras. O livro começa de fato com Nikolai esperando que seu filho Arkádi volte a morar com ele depois de terminar a faculdade. Nesse momento Nikolai é viúvo e mora com o irmão. Quando Arkádi volta para casa, ele traz um convidado, que é um dos seus grandes amigos, o Bazárov. Temos ai nossos personagens centrais.

Esses quatro personagens vão viver em conflito por causa das diferenças de pensamento. O Bazárov se diz niilista, e segundo o próprio Bazárov isso queria dizer que eles considerava tudo de um ponto de vista crítico. Tudo ele questionava. Hoje em dia o Bazárov é aquele cara que se considera muito desconstruidão, muito inteligente, que não enxerga mais o mundo do mesmo jeito, mas que no fundo não seja bem por ai. O Bazárov é aquele cara que problematiza tudo e é um tanto prepotente (pelo menos foi a impressão que eu fiquei dele). Tanto que ele falava abertamente ao Arkádi sobre como o Nikolai e o Pável eram arcaicos e excêntricos. Bazárov considerava que os dois tinham ideias muito conservadoras e ultrapassadas. Enquanto isso o Arkádi sofria grande influência do amigo, ele defendia essas ideias, mas com o tempo ele começa a se questionar se as coisas  realmente eram do jeito que o Bazárov falava.

É complicado afirmar com muita certeza quais são as principais características das personagens. Tudo o que o leitor conhece sobre cada personagem do livro é o que os próprios personagens falam. Então a gente conhece a visão que o outro tem e um pouco de como cada um se enxerga. Ficou confuso isso? Talvez. Mas o narrador não apresenta muito da personalidade das personagens, a gente vai pescando essas informações nos diálogos e em alguns pensamentos deles.

O maior conflito do livro se da entre Bazárov e Pável. Os dois são mais incisivos e defendem com mais agressividade as suas ideias. O clima já estava bastante tenso quando todos eles são convidados a ir em uma festa em uma cidade vizinho e os dois jovens aceitam o convite. A partir desse ponto o enredo começa a se desenvolver.

Quando a gente pega um livro escrito há muitos anos atrás, como é o caso, a gente precisa olhar para o enredo com um pouco mais de atenção. Os valores da sociedade da época, os costumes, enfim o contexto desses personagens é bem diferente do nosso. Você não pode esperar que eles lidem com as situações da mesma forma que a gente lida.

Eu falo isso porque em Pais e Filhos os acontecimentos do livro podem parecer um tanto banais hoje em dia, porque muita coisa já mudou na nossa sociedade, mas se você pensar no contexto da época, vai perceber que as situações não eram assim tão simples. 

O que me marcou mesmo nesse livro foram os diálogos (na verdade todas as vezes que eu entrei em contato com literatura russa o que mais me marcou foram os diálogos). O Bazárov batia muito de frente com todo mundo. Foi o que eu falei, ele problematizava demais tudo o que as pessoas falavam. Ele queria sempre ser o cara questionador que colocava todo mundo a prova e ele fazia isso com a intenção de mostrar que as pessoas estavam erradas. Isso chega a ser um tanto cansativo na verdade. A grande graça é que essas provações que ele queria provocar acabam acontecendo naturalmente com todos os personagens. Ao logo do livro todos eles vão passar por momentos em que é preciso refletir sobre o que cada um acredita, se realmente estão tomando as melhores decisões, se eles realmente têm uma visão de mundo adequada.

Eu acho que esse livro também trata muito de amadurecimento. Não só de amadurecimento das personagens, mas das ideias. Aos poucos cada um deles vai refletindo e compreendendo melhor o que eles defendem. O Nikolai, por exemplo, começa a se questionar sobre como ele administra as suas terras, sobre como ele lida com a família e com isso ele vai mudando um pouco o comportamento dele. O livro se passa em uma época em que estava acabando a relação de servos na Russia e os donos de terra estavam se adaptando a nova condição. E esse é um dos motivos de conflito na visão do Nikolai e dos jovens. O Nikolai também começa a repensar sobre algumas questões mais pessoais, sobre como ele se relaciona com a família e o que ele se permite viver. Na verdade esses 4 personagens centrais vão passar por questionamentos um tanto semelhantes. Todos eles vão se contradizer em algum momento e vão repensar suas convicções e valores e com isso acabar sofrendo algumas mudanças. É bem bacana acompanhar o caminho de cada um deles.

No fundo o livro é um tanto sobre como cada um se enxerga, como cada um quer ser visto pelos outros e como cada um realmente é. 

Uma coisa que eu gosto muito nesses livros mais antigos é perceber que a gente vive em um mundo bem diferente, mas que também ainda sofremos com os mesmos problemas. Nesse caso mesmo, o tema de embates de gerações sempre vai ser atual. Os jovens sempre vão achar que os pais são antiquados, que eles se perderam em algum ponto e não acompanharam as mudanças. Os filhos tendem a ser diferentes dos pais, constroem várias ideias diferentes, criticam o modo de viver dos mais velhos, mas com o tempo a gente vai percebendo que tem muito mais dos nossos pais na nossa personalidade do que a gente imaginava.

Em Pais e Filhos a gente percebe que os dois jovens se sentem tão diferentes dos mais velhos, mas até que ponto eles são realmente diferentes e realmente querem coisas tão diferentes assim? Aos poucos no desenrolar do livro essa questão fica mais clara e o leitor acaba refletindo junto sobre como é essa relação fora da ficção.

Eu não achei esse livro sensacional, incrível e maravilhoso. Eu tinha uma expectativa muito alta e não posso dizer que ele foi uma decepção, mas também não foi tudo isso. Eu gostei bastante da leitura sim, foi uma leitura bem gostosa e eu tive uma experiência positiva, mas não acho que esse é um livro maravilhoso.  Ainda assim valeu muito a pena tanto pela leitura quanto pelo livro como objeto, porque realmente essa edição é muito bonita.

Como já falei, Pais e filhos foi publicado pela Cosac Naify e são 349 páginas (contando os textos extras) de muita saudade dessa editora que mal foi embora e já lamentamos pacas.

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2 comentários sobre “E vamos começar de Russos – Pais e Filhos – Ivan Turguêniev

  1. Oi Na! Adorei a resenha como sempre! Eu adoro esse livro! Acho que o “sensacional” dele fica pela carga histórica, uma vez que o autor foi repreendido até pelo governo russo por ter abordado esses assuntos em um livro! A rebeldia hoje é comum, a rebeldia no século 19, e ainda por cima na sociedade russa extremamente patriarcal e servil é bem diferente! Eu sempre me impressiono com os os livros russos, desde as pequenas novelas até as grandes obras! E a escrita de Turgueniev… Adoro! Beijinho da Isa – LidoLendo.

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    1. Aahhh que bom que gostou Isa!
      Eu acho que só não amei muito mais o livro pq eu fui com uma expectativa alta demais. Mas realmente, quando a gente se coloca no lugar dos leitores da época deve ter sido um choque. Mas a leitura é uma delícia né? Gostei demais. Preciso de mais russos na minha vida hahaha esse ano quero ler irmãos Karamazov. Vamos ver se vai dar certo

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