A sensibilidade que escondemos – A elegância do ouriço – Muriel Barbery

E se a literatura fosse uma televisão que a gente assiste para ativar nossos neurônios-espelhos e ter, sem grande esforço, os arrepios da ação? E se, ainda pior, a literatura fosse uma televisão que nos mostra tudo aquilo em que fracassamos?

É sempre muito gostoso quando a gente encontra um livro em que o autor conseguiu colocar em palavras e de forma organizada e clara alguns dos nossos pensamentos e sentimentos. Quando um livro conversa com a gente, quando encontramos a nossa visão de mundo ali naquelas palavras.
Acredito que essa é a grande graça da literatura, pelo menos pra mim. Conseguir me encontrar em outras histórias, em outras vidas e situações. Conseguir aprender mais sobre mim e sobre como eu vejo e sinto o mundo ao meu redor. E foi assim, acolhida, que eu me senti durante a leitura de A elegância do ouriço.

A elegância do ouriço tem como ponto central um prédio chic de Paris. Um prédio dominado pela família tradicional francesa. Pessoas ricas, esnobes e muito vazias. Pessoas que mantém relações superficiais umas com as outras, que invejam as conquistas e os bens materiais das outras, pessoas que se aturam, mas que não constroem nada juntas e que principalmente nunca reparam nos detalhes das pequenas coisas.

E nesse prédio vamos encontrar duas personagens que se contrapõe a todos os outros moradores. Paloma tem 12 anos, e é filha de um político influente, vive em uma família que se diz um tanto de esquerda, mas que na verdade não tem empatia nenhuma com ninguém e são bem egoístas. A mãe é uma pessoa vazia, que mais repete discursos prontos do que reflete sobre alguma coisa, assim como o pai, e a irmã mais velha faz faculdade de filosofia e se acha parte de uma elite pensante e cheia de cultura de Paris, mas é tão vazia quanto a mãe. Paloma é uma garota sensível, inteligente e muito observadora.  se sente completamente deslocada nessa família e começa um diário em que escreve algumas reflexões sobre o cotidiano, buscando nos pequenos detalhes algum sentido para a vida.

Outra personagem principal desse livro é Renné, uma zeladora cinquentona, ranzinza, que para a maioria dos moradores do prédio é invisível. Mentira, eles a consideram muito importante, pois é Renné quem rega as plantas e entrega as correspondências. Renné se aproveita da capa de invisibilidade que o cargo de zeladora garante para se proteger do mundo.

O que os moradores não sabem é que a zeladora é na verdade uma mulher muito culta que tem grande sensibilidade e interesse por tudo relacionado a artes. Renné conhece artes plásticas, musica clássica, óperas e é apaixonada por literatura, em especial por literatura russa.

Já não basta o livro preferido de Renné ser Anna Karênina, que possivelmente o meu livro preferido na vida também (fico em duvida entre Anna e Grande Sertão: Veredas), o personagem preferido dela é o mesmo que o meu e as cenas que ela mais gosta são as mesmas que me tocaram mais. Me identifiquei demais com a Renné, pelo menos no que diz respeito a literatura. Ela tem um gatinho chamado Leon (em homenagem a Tolstói) e nunca compartilha nada desse seu lado mais cultural com os moradores do prédio. Ela guarda toda a sensibilidade da arte dentro dela, como se isso a ajudasse a manter a esperança no mundo e renovasse suas forças todos os dias.

Ao longo da história os caminhos de Renné e Paloma se aproximam cada vez mais até surgir uma amizade muito sincera e sensível.

Esse livro é muito delicado. Cada detalhe da personalidade das personagens, o desenvolvimento da história  e principalmente a construção das críticas. Tudo é feito com muita suavidade, em nenhum momento as coisas são discutidas com tom agressivo ou pesado, é sempre muito leve e embasado. Cada frase é muito bem construída e muito clara. Os personagens são muito profundos e sempre muito coerentes.

Uma das grandes críticas do livro é se Renné é invisível por se manter distante de propósito dos moradores ou se seu cargo e posição social faz com que ela se torne invisível. Além disso a críticas sobre tudo o que faz as pessoas se sentirem superiores às outras, a superficialidade dos discursos e dos valores de cada um,

Em conversas leves e muito divertidas entre Renné e sua melhor amiga, Manuela, que trabalha limpando a casa dos moradores do prédio, cada um dos moradores tem sua vida privada exposta e vemos o quanto eles são vazios. O quanto eles se sentem melhores que as duas amigas, e acreditam que as desprezam, que elas dependem deles e na verdade, ao longo das conversas entre Renné e Manuela na hora do chá, percebemos que a relação é outra. Que elas não fazem questão nenhuma daquelas pessoas, que não sonham em ser aquelas pessoas e que elas não se colocam em hierarquia, que olham de uma maneira mais humilde e realista para aquelas pessoas. Renné, por exemplo, em momento algum se sente melhor que as outras pessoas por causa de sua bagagem cultural.

Eu gostei muito desse livro, mas não me envolvi tanto quanto eu esperava, Tive alguns pequenos problemas durante a leitura, e acho que a maioria dos meus problemas foram por causa da expectativa muito alta que eu tinha antes de começar a ler.

Esse é um livro que conversa muito bem com leitores, principalmente com aqueles que se interessam por literatura clássica.

Fiquei com a impressão que esse é um daqueles livros que a cada releitura vai apresentar milhares de argumentos e pontos de vista novos. Tem muita coisa escrita nas entre linhas, é um livro para quem gosta da sutileza dos pequenos detalhes. Ele exige do leitor a mesma delicadeza e suavidade que a autora teve durante a escrita.

A elegância do ouriço foi publicado pela Companhia das Letras e tem 352 páginas.

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7 comentários sobre “A sensibilidade que escondemos – A elegância do ouriço – Muriel Barbery

  1. Achei muito interessante a resenha, realmente, causa curiosidade, aquela sensação de que ao lê-lo poderemos descobrir caminhos que nos levem a enxergar melhor a nós mesmos e aos outros. Olhar, ler e observar!

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    1. Olá Elizabeth, que bom que gostou do post!
      Esse livro é muito gostoso, vale muito a pena dar uma chance a ele qualquer dia desses.
      Com certeza é do tipo que abre nosso olhar e conversa muito com o leitor.

      Beijos

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  2. Adoro esse livro. Sugiro também o filme, uma adaptação muito boa.

    O Porco-Espinho (tít.original Le Hérrisson)

    Ficha técnica
    Lançamento: 3 de Julho de 2009
    Dirigido por Mona Achache
    Com: Garance Le Guillermic, Josiane Balasko, Togo Igawa e outros
    Gênero: Drama
    Palavras chave: Filosofia, Solidão, Suicídio, Literatura
    Nacionalidade: França

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