E então, o que é que vai ser heim? – Laranja Mecânica – Anthony Burgess

Continuando no universo distópico, depois de O Perfuraneve, Oh queridos druguis, chegou a hora de falar sobre esse livro que muito horroshow mesmo e cheio de muita ultraviolencia.

Não entendeu nada dessa frase? Foi assim que eu me senti quando comecei a ler Laranja Mecânica.
Minha primeira tentativa de ler esse livro foi quando eu tinha uns 15 ou 16 anos em uma versão PDF. Mas estamos falando de 2003/2004, ler um livro PDF significava ler no computador, com zero conforto. Obvio que não deu nada certo né? Nem terminei o primeiro capitulo, porque além de todo o desconforto eu não entendia nada do que estava escrito.

Laranja Mecânica foi escrito em 1962 e tem uma linguagem unica. O livro é narrado em primeira pessoa pelo Alex, um jovem de 15 anos que participa de uma gangue. O Alex fala numa mistura de gírias nadsat com uma linguagem meio Shakespeare. As gírias nadsat foram criadas para esse livro e logo no começo causam um desconforto no leitor, mas ajuda muito a gente a mergulhar ainda mais no universo do Alex.

Acho que o contexto dessa história já é bem manjado, principalmente por causa do filme, mas mesmo assim vou falar só por precaução. Como eu falei o Alex é um adolescente e a vida dele se divide entre a escola, que ele e os amigos frequentam durante o dia, e a gangue dele. Todas as noites ele se encontra com mais 3 amigos, o George, Pete e o Tosko, no mesmo lugar e no mesmo horário e então eles tomam o bom e velho moloko com faca, que seria uma mistura de leite com drogas sintéticas.

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O Alex deixa bem claro que ele por si só já é uma pessoa bastante perturbada e que sente um prazer real em cometer atos de violência. Ele gosta de ver as outras pessoas sofrendo, ele gosta de derramar sangue. Mas além disso, segundo ele o moloko deixa ele e os amigos com ainda mais vontade de cometer crimes.

Então depois que a droga faz efeito eles se preparam e começam a planejar o que vão fazer naquela noite. Eles sempre se deixam levar pelos impulsos, e acredite os impulsos deles vão ser sempre os mais cruéis e horrendos possíveis.

Nem de longe essa é uma leitura agradável. O livro é dividido em três partes e na primeira parte vamos acompanhar a rotina desse grupo de amigos e vai ter muito espancamento, correntadas na cara, dentes arrancados e estupros desde mulheres adultas até com garotas de 10 anos. E lembrando que os criminosos também são adolescentes, então é tudo muito mais agressivo e pesado.

O problema do Alex (além de todo esse lado perturbado dele) é que ele se acha muito malandro sabe? Ele é muito mais esperto do que todo o resto do mundo. E toda essa inteligencia vai conduzir ele por um caminho sombrio. O Alex vai ser traído pelos amigos e acaba sendo preso.

Na prisão ele vai continuar se achando muito melhor do que aquela kal toda, como ele diria, e mais uma vez vai se dar mal por causa disso. Ele acaba entrando em um programa de recuperação de criminosos, e passa pelo tratamento Ludovico. Nesse tratamento ele vai receber uma medicação que faz com que ele passe muito mal e ele vai ficar todo amarrado, com os olhos grampeados para continuar abertos e assim assistir obrigatoriamente cenas horrendas de violência, do mesmo tipo que ele cometia, mas enquanto rolam essas cenas o remédio vai estar no ápice e ele passa muito mal com tudo aquilo. Além disso enquanto as cenas vão passando ele ouve musica clássica, que é o estilo preferido dele, e essa combinação potencializa muito o efeito do tratamento.

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Isso seria menos da metade do livro. Na prisão acontece muita coisa que eu não falei e depois do tratamento o Alex sai da penitenciária e ai vamos acompanhar os efeitos do tratamento.

Quando eu comecei a ler esse livro (pela segunda vez) eu não entendi logo de cara o porque todo mundo gostava tanto dessa historia. O Alex é tão asqueroso e as cenas são tão pesadas que eu não via como esse livro dar certo comigo. Mas aos poucos vamos conhecendo outros lados da personalidade do Alex e a história vai ficando cada vez mais envolvente. As escolhas dele foram me deixando curiosa para saber o que ia acontecer e depois que ele foi preso o livro ganha um novo ritmo e eu não conseguia mais parar de ler.

A pira da história é que o livro te questiona o quanto vale a pena interferir no livre arbítrio de uma pessoa. Por pior que o Alex fosse era realmente necessário ele passar por tudo o que passou? Ele não deixou de apreciar a violência, ele não aprendeu com os erros dele, o que acontece é que ele passa ridiculamente mal só de imaginar o minimo de agressão. E não contente, ele não consegue mais sentir prazer com música e nem com relações sexuais, porque pra ele o sexo também era uma forma de violência. Realmente tudo isso vale a pena? Você realmente é capaz de construir uma sociedade melhor desse jeito? Por que ele era capaz de cometer as piores agressões nós também podemos fazer o mesmo com ele? Por ele ser uma pessoa perturbada nós temos o direito de humilhar, de destruir a vida dele?

O livro conta uma história com muitos exageros, tudo fica muito surreal, mas ele acaba levantando questões muito pertinentes. Eu fiquei muito incomodada com a violência na primeira parte do livro, mas me incomodei ainda mais com o tratamento Ludovico. Pra mim aquilo foi chumbo trocado. É você achar que se resolve violência cometendo atos tão agressivos quanto a pessoa que está “sendo curada” cometeu. Não faz sentido nenhum.

Na verdade o livro me fez ter mais certeza de muita coisa que eu já acreditava, violência não justifica violência. Mas eu fiquei muito curiosa para saber qual é a opinião que alguém que reclama quando se fala de direitos humanos dentro de penitenciarias ou que é a favor da pena de morte e acha compreensível e justificável esses linchamentos públicos ou qualquer outro absurdo desses. Eu queria muito saber como uma pessoa dessas enxerga o Laranja Mecânica.

Agora eu entendo claramente toda a genialidade desse livro e com certeza esse é um livro que eu ainda tenho muita coisa para digerir e que vou recomendar para muitas pessoas e vou ficar lembrando dessa história por tempo. Esse é o tipo de livro que prova o poder de uma distopia. Distopias estão muito na moda, mas tem muita história fraca e mal aproveitada, pelo menos pro meu gosto. Acho que não é atoa que Laranja Mecânica, 1984, Admirável mundo novo e Fahrenheit 451 (que eu ainda não li) são considerados os grandes clássicos distópicos. Não posso falar por Fahrenheit, mas os outros 3 te dão um tapa na cara ao mesmo tempo que um soco no estômago, que você não sabe nem de onde veio. É para tirar qualquer um da zona de conforto, são livros que incomodam mesmo. O perturbador desses livros é que o universo distópico parece tão surreal e exagerado, mas na verdade não é assim tão distante da nossa realidade. O controle da população, a manipulação de informações, o doutrinamento, a violência, a alienação são elementos da nossa sociedade. Somos vigiados, controlados  e manipulados o tempo todo. Esses livros são muito ricos em criticas sociais e abrem os nossos olhos para vários problemas da nossa sociedade.

Já fiz um post enorme, podia falar muito mais coisas porque esse livro abre espaço para muitas discussões, mas ai sempre tem o mimimi de spoiler e etc. Eu sou o tipo de pessoa que não vê problema em spoiler e muitas vezes eu até gosto, mas eu sei que a maioria das pessoas criam um problema enorme em cima disso, então vamos respeitar. Mas antes de acabar o post eu queria muito falar sobre a edição que eu li desse livro.

A minha edição é a especial de 50 anos, lançada em 2012 pela Editora Aleph. Essa edição é linda demais, em capa dura, com uma jacket, papel couché (então temos aqui mais um livro pesado, assim como Perfuraneve), e várias ilustrações lindas (na medida do possível né? porque elas são bem pesadas) e muitos detalhes em laranja. Mas a graça mesmo é que o livro é cheio de extras. Logo no começo temos alguns extras sobre a edição brasileira, a tradução e um pouco sobre o nadsat e no final do livro temos 3 textos do autor sobre a visão dele do Laranja Mecânica. Esses textos melhoraram demais a minha experiência de leitura. Eles são muito enriquecedores e é muito legal poder dialogar mais com o autor e conhecer a visão dele. Essa edição é cara? SIM! Mas vale a cada centavo. Vale a pena ficar de olho nas promoções. Sei que a capa nova da Aleph está linda, mas essa edição de 50 anos é sensacional.

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7 comentários sobre “E então, o que é que vai ser heim? – Laranja Mecânica – Anthony Burgess

    1. Eu fui lendo em doses homeopáticas sabe? Esse livro é um ótimo exemplo de como spoiler funciona bem comigo. Como eu sabia o que ia acontecer na estória, eu queria muito ler como o autor ia desenvolver a narrativa. Se você gosta desses livros que provocam o leitor, acho que é uma ótima opção de leitura

      Curtido por 1 pessoa

  1. Burgess tem um ótimo livro chamado “As Últimas Notícias do Mundo”. Livro incrível, divido em três atos. Um deles é um musical sobre a passagem de Trótski por Nova Iorque (sim, é tudo em forma de poesia, “musicado”); outro com pequenas histórias em que Sigmund Freud é o personagem principal, este já em prosa mesmo; e a história que talvez seja a principal do livro, sobre um apocalipse que está prestes a acontecer na Terra. Li há muitos anos, quando era adolescente, me deixou uma ótima impressão. Cada parte do livro é intercalada (ou seja, lê-se um pouquinho de cada e não tudo de uma vez) e elas acabam se ligando de uma maneira bastante improvável. Recomendo a leitura fortemente.

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