Não vamos esquecer a Ditadura Militar – O que é isso companheiro? , Fernando Gabeira

Eu não vivi a Ditadura Militar, mas mesmo assim esse sempre foi um tema que mexeu muito comigo. Quando a gente estuda esse período da nossa história acho que não tem como não ficar chocado e assustado com toda a brutalidade da politica e também com a repressão que a população sofria. O problema é que parece que muita gente não aprendeu o que foi esse período ou então rolou uma amnésia, não sei.

Desde o ano passado a gente vê cada vez mais pessoas com discursos de ódio contra a presidente e nesse bolo de manifestações pedindo o impeachment, seja nas ruas ou nas redes sociais, é muito comum ver gente pedindo a volta da Ditadura Militar. Esse post não tem como objetivo discutir o cenário atual da política do Brasil. A questão é que independente do que você apoia e acredita ser o melhor para o país, acho que devemos lembrar o quanto foi pesado o período da ditadura e não ir lá nas manifestações e ajoelhar na frente de quartel, rezando pela volta do governo militar.

O que e isso companheiro? É um relato escrito pelo Fernando Gabeira. Em 1964, com 23 anos, Fernando Gabeira era jornalista do Jornal do Brasil no Rio de Janeiro. O livro começa com o golpe militar e como o Gabeira se sentiu incomodado com a situação e acabou se tornando um militante, lutando junto com a oposição.

Na verdade o Gabeira participou da luta armada e por um tempo era quase como se ele levasse uma vida dupla. Ele trabalhava no Jornal do Brasil, escrevendo sobre o governo, tentando colocar mesmo que sutilmente um pouco de oposição nos seus textos, mas sem poder deixar muito claro entre os colegas o que ele realmente fazia.

O legal desse livro é que o Gabeira não mostra uma versão idealizada dos fatos, ele narra como a oposição tentava crescer, mas o quanto eles se sentiam perdidos. A história do nosso país é muito recente e isso muitas vezes atrapalhava os militantes. Era difícil ganhar força sem todo um histórico de luta, era difícil promover uma revolução em um país que nunca tinha vivido nada parecido. Ele retrata o Partido Comunista muito imaturo e ainda aprendendo a lidar com a nova situação do país e tentando aprender a conquistar os trabalhadores. Dificuldades muito parecidas eram vividas pela UNE. Alem disso entre todos os grupos que formavam a oposição a ditadura militar não havia um consenso de objetivos. Parte queria apenas derrubar os golpistas e restaurar a democracia, outros além de restaurar a democracia sonhavam com um Brasil socialista. Tudo isso complicava ainda mais a situação dessa oposição.
Outro ponto muito delicado que o Gabeira discute no livro, é a questão da marginalização de toda a população que não se enquadrava nem como trabalhadores e nem como estudantes. Muitas pessoas que também tinham interesses em mudar a situação do país foram praticamente ignoradas por se enquadrarem nesses dois perfis.

O Gabeira acaba se envolvendo com o MR-8 (Movimento Revolucionário 8 de Outubro), que era um grupo de revolucionários de ideologia comunista, que participava da luta armada. Ele descreve todo o mecanismo que ele conheceu e participou desse grupo. Como eram as relações entre os membros, como eles se protegiam, como trocavam informações, como se escondiam da polícia… enfim. E nesse movimento ele acabou participando do sequestro do embaixador dos EUA. Esse pode ser considerado um dos pontos altos do livro, pois é quando a situação fica mais tensa. A gente acompanha desde o planejamento até a execução do sequestro, as negociações e a rotina dentro do cativeiro.

Apesar de se esforçar muito para manter uma vida clandestina, Gabeira acaba chamando atenção demais dos militares e em 1970 ele foi preso em São Paulo. Pra mim essa é a parte mais densa e mais marcante do livro.

Já começa que nas aulas de história lá do Ensino Médio eu tinha pavor sempre que se falava de DOPS e DOI-CODI. Caso você seja uma dessas pessoas que já se esqueceu das aulas de história, o DOPS era a instituição da Policia Civil responsável por investigações e o DOI-CODI era um órgão com oficiais de várias forças armadas e que tinha como objetivo a repressão propriamente dita. Sempre que se falava de ditadura, a gente ouvia falar das torturas que os presos políticos sofriam nos porões do DOPS e do DOI-CODI. Inclusive o Vladimir Herzog, outro jornalista muito importante da época, morreu nas mãos do DOI-CODI em São Paulo. Aqui eu faço uma pequena pausa para uma indicação: Se você não sabe de quem eu tava falando e não conhece a história do Vladimir Herzog, recomendo fortemente o documentário VLADO – 30 anos depois. Você pode assistir aqui pelo Youtube mesmo, e veja pelo menos o começo em que pessoas na rua são questionadas sobre o que elas pensam da ditadura e muitos falam que foi um período de ouro da história. O Vlado foi muito importante para a oposição, ele era da TV Cultura e foi preso e brutalmente torturado até a morte. Como era uma figura importante sua morte foi anunciada nos jornais como um suicídio na prisão.

Voltando para o livro, acontece que por pior que fosse nesses porões a coisa podia ser muito pior quando você caia na mão da Polícia do Exército. Ali as torturas eram muito mais agressivas e as condições das celas eram muito piores. Nessa parte do livro ele levanta outra discussão bem bacana que é sobre os presos não políticos. Uma coisa é você ouvir falar sobre a vida nas penitenciárias, outra é viver ali dentro. Ele mostra todas as atrocidades que eram cometidos com todos os presos, sejam políticos ou não.

O Gabeira passou por várias prisões diferentes, tanto em SP quanto no RJ e chegou até a ficar preso junto com o Frei Tito. Aqui faço outra pausa: Se mais uma vez você não sabe de quem estou falando eu nem vou escrever muito sobre ele aqui, mas ele foi colaborador da ALN e também foi brutalmente torturado. Recomendo um filme muito bom, mas muito pesado, é pra quem tem estômago mesmo, chama Batismo de Sangue(você pode ver o trailer aqui). 

Além de tantas figuras políticas importantes, ele conviveu com muitos inocentes que simplesmente não faziam ideia do que estava acontecendo e foram muito torturados enquanto tentavam provar que não sabiam de nada.

Apesar de não existir essa divisão real, eu dividi o livro em: o início do golpe, a guerrilha, o sequestro e a prisão. Em cada fase a gente consegue ter uma ideia bem palpável da realidade da época.

Eu acho que esse livro é muito bacana para quem gosta de conhecer mais da nossa história e conhecer a realidade desse período sem romantismos e idealizações. Mas em tempos em que a gente vê tanta gente defendendo a volta da ditadura, acho que esse livro entra pra lista de leituras essenciais/fundamentais. Tenho a impressão que as pessoas esqueceram o que é viver uma ditadura de verdade e viver uma repressão política. A gente precisa refletir mais sobre a nossa história para não sair defendendo ideias absurdas simplesmente para fazer uma oposição. Com toda certeza o período da ditadura foi o mais negro e pesado da nossa história. Entendo que quem vivia afastado dos grandes centros pode não ter sentido grandes impactos negativos ou grande repressão, ou pelo menos acha que não sentiu, mas muita gente sofreu demais nessa época e ainda hoje carregamos muitas feridas sociais e politicas da ditadura.

Se você quer saber mais sobre o que rolou nesse período e como a repressão politica machucou muita gente, você pode acompanhar o blog Lendo a Ditadura, que é um projeto que está rolando para ler obras que tocam nesse tema e relembrar todo o contexto dessa época.
Além disso existem filmes e documentários excelentes como os que eu já citei no post. Um exemplo bem mais leve, mas muito bacana é o filme O ano em que meus pais saíram de férias.
Outra fica bacana é uma série de videos do canal UNIVESP TV. Aqui nesse link você encontra uma série de playslists com vídeos sobre o golpe de 1964. São debates, reportagens, seminários, entrevistas… enfim, tem muito material bacana para se aprofundar mais na história.

Não vamos esquecer da nossa história para não viver os mesmos erros de novo e passar por tanto sofrimento mais uma vez.

Só para finalizar, O que é isso companheiro? foi publicado pela Companhia das letras e faz parte da coleção Companhia de Bolso. Ou seja, você encontra fácil esse livro e ele é bem baratinho. São 206 páginas de relato, mais algumas com uma espécie de glossário das siglas e alguns nomes importantes que aparecem ao longo do livro. Se você não lembra direito sobre o contexto histórico, talvez sinta um pouco de dificuldade para acompanhar a leitura, mas não é nada muito complicado. O glossário ajuda muito,a linguagem é fácil e como já falei, não faltam opções de materiais simples e acessíveis para relembrar a história da ditadura.

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