Pelas águas de Mekong – O amante, Marguerite Duras

Esse é um daqueles livros que misturam a ficção com a não-ficção. Considerado um livro mais próximo de uma autobiografia da autora, uma das primeiras coisas que você vai encontrar pela internet é que esse é um livro sobre a iniciação sexual de uma adolescente de 15 anos com um chinês 12 anos mais velho.

Eu considero essa uma imagem muito vaga da história. Na verdade esse livro trata sobre as relações em geral que essa jovem tem, mas principalmente as relações dela com a família. Eu pelo menos considerei que todo o relato da iniciação sexual só serviu como um plano de fundo. Ou melhor, serviu pra puxar assunto e começar a conversar sobre o que realmente importa.

Depois de observar seu rosto marcado pelo tempo a autora começa a se lembrar da juventude e volta para um ponto chave, o dia em que ela conheceu um chines rico de Saigon em uma viagem de balsa. O tempo todo ela vai usar os
relatos da rotina dela com o chinês para aprofundar em outros pontos como por exemplo, a vida escolar dentro de um pensionato em Saigon e a vida familiar.

A família dela era marcada pela miséria. Além disso eu fiquei com a impressão que era uma família muito distante. Não conhecemos os nomes, mas sabemos que a família é composta pela mãe, o irmão mais velho e o irmão mais novo. O irmão mais velho é o mais problemático. Envolvido com drogas, com comportamento extremamente violento e muitas histórias de roubos e fugas, ele sempre foi acobertado pela mãe. Na verdade em alguns momentos do livro a protagonista diz que a mãe se refere a eles como “O meu filho [se referindo ao filho mais velho] e os outros dois”. A mãe também é uma pessoa bastante perturbada.

Todos os dias o chinês busca a garota no pensionato com sua limousine preta e a leva para sua casa. Lá eles exploram o corpo um do outro em encontros intensos. Ele se sente vivendo um amor impossível com prazo de validade e sente que ela se mantém indiferente, como se o único interesse que ela pode ter é no dinheiro do chinês.

A escrita da autora é maravilhosa. Ela consegue construir imagens muito reais. O tempo todo é como olhar para uma série de fotografias. O texto é meio vago e muito da história é contada nas entrelinhas, principalmente o que diz respeito aos sentimentos da garota, que são partes mais subjetivas. A sexualidade é trabalhada de tal forma que o texto nunca é vulgar, sempre tem tom delicado, mas ao mesmo tempo é frio e distante, como se não pudéssemos confiar nas lembranças da protagonista.

Conseguimos absorver muito da experiência dela e não conseguimos perceber quais pontos da história são reais e quais foram inventados.

Apesar de ser um livro bem curtinho, a experiência de leitura é muito rica e muito intensa.

O amante é editado pela Cosac Naify e você pode comprar tanto como parte da coleção Mulheres Modernistas com capa dura, fotinho da autora e posfácio, ou como parte da coleção portátil, que são os livros de bolso da editora. Li na edição da coleção Mulheres Modernistas pelo kindle. O livro tem apenas 112 páginas, mas que texto incrível!

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