Sobre eternos devaneios – A vida privada das árvores de Alejandro Zambra

E mais uma vez vamos falar sobre Zambra nesse blog, porque sim! Porque quando encontramos um bom autor é impossível não querer ler tudo o que ele já produziu.

Se você tem o minimo de interesse por esse autor, ou se pelo menos gosta de acompanhar os lançamentos mais comentados, deve ter visto pela internet que agora no segundo semestre a Cosac Naify publicou mais um livro do autor chileno. O livro da vez é uma coletânea de contos chamada Meus Documentos. Particularmente adorei esse título, dá a impressão que ele pegou todos os arquivos que ele tinha guardado no computador e mandou publicar. Seleciona todos os arquivos e manda como está mesmo, tá bom assim.

Óbvio que também estou no grupo de pessoas ansiosas por ler esse livro, mas sou chata e não queria comprar o Meus Documentos sem antes ler o único livro que faltava da listinha dos já publicados. E foi assim que peguei A vida privada das árvores.

 Já tinha lido pela internet muita gente falando que esse não era nem de longe um dos melhores do Zambra, na verdade entre os três livros esse era sempre o mais esquecido, aquele ali que também foi publicado, também lemos, mas é…

Resolvi limpar o coração e pegar esse livro sem pretensões, sem grandes expectativas. O livro conta a história de Julián, um cara meio apático que se vê parte de uma família que começou antes dele. Ele é o segundo marido de Verônica e padrasto de uma garotinha chamada Daniela. Vamos conhecer brevemente como Julián chegou ali, como ele foi atrás de Verônica e como o relacionamento começou. Depois de conhecer os personagens é hora de conhecer a problemática.
Verônica faz aulas de desenho a noite e nesses casos Julián coloca Daniela para dormir. Quando a menina demora para pegar no sono ele conta histórias da vida privada das árvores, que são diálogos entre duas árvores sobre o cotidiano delas. A criança acaba dormindo porque essas histórias nunca são interessantes.

Em uma determinada noite Verônica começa a demorar demais para voltar e Julián começa a se preocupar com a demorar. Enquanto espera Daniela dormir, ele começa a viajar pensando no relacionamento anterior, em como tudo aquilo deu muito errado, em todo o vazio da relação.

Até esse ponto eu estava gostando do livro. Na verdade eu esperava que a leitura fosse meio parada, meio chata e até o Julián começar a divagar sobre o relacionamento passado eu estava achando o livro bem dinâmico, mas ai veio o primeiro problema do livro.Como eu já li Bonsai e Formas de voltar para casa, comecei a achar que A vida privada das árvores era mais do mesmo. Eu já tinha lido aquela história de comparar relacionamentos com bonsais, apesar que em a vida privada das árvores o que temos é um cara que para de se dedicar ao relacionamento e passa a se focar nos cuidados da plantinha, que também não vai para frente. Eu já tinha lido um livro do Zambra sobre a bagagem que carregamos do nosso passado e como tudo o que fizemos lá atrás constrói o que somos hoje. Também já tinha lido a historia de uma cara que queria ser autor, mas não era e nem sabia se realmente escrevia alguma coisa de qualidade, isso já foi trabalhado nos outros dois livros. E foi por isso que o ritmo começou a ficar mais lento. Tudo o que eu achava genial no Zambra, nesse livro foi só uma repetição. 

Depois a segunda metade do livro eu definitivamente não gostei. Ele passa a imaginar o futuro de Daniela, as expectativas dele sobre os relacionamentos que a menina vai ter, sobre a relação dela com Julián e também a relação dela com o pai biológico. É uma parte muito abstrata e que ganha uma força muito desproporcional. Esse passa a ser o foco do livro e o momento presente vira segundo plano. Então o livro que eu esperava que fosse tratar sobre a dinâmica daquela família, é na verdade um livro sobre as expectativas que o Julián tem para as relações dele com a enteada.

Apesar de ter gostado do começo do livro, acabei concordando com quem considera que esse é o livro mais sem graça do autor. No começo fiquei com a impressão que ele ia conversar com os outros dois livros, que ele seria uma ponte perfeita fazendo a transição de um assunto para o outro, mas na verdade só achei ele bem repetitivo e meio sem criatividade.

Continuo achando a escrita do Zambra deliciosa, mas mesmo esse aspecto foi bem fraco em A vida privada das árvores. Ainda gosto muito mais dos outros dois livros, só que achei que nesse livro a essência do autor se perdeu.

Reforcei minha opinião que Bonsai é o livro mais original e com uma pegada mais dinâmica e surpreendente e que Formas de voltar para casa é o livro mais maduro desses 3 primeiros livros. Mas definitivamente A vida privada das árvores deixou muito a desejar.

Não vou me deixar abalar por esse livro e ainda vou atrás dos Meus Documentos, até porque tem muita gente bacana falando bem desse livro.

Assim como bonsai, esse é um livro extremamente curtinho, não dá nem para chamar de novela. São 98 páginas da mais pura divagação. Já falei lá em cima que o livro foi publicado pela Cosac e por isso podemos esperar por um belo projeto gráfico, mas como li pelo Kindle não posso falar nada sobre isso.

Anúncios

4 comentários sobre “Sobre eternos devaneios – A vida privada das árvores de Alejandro Zambra

  1. Que pena que sua leitura não foi tão boa! Mas às vezes acontece…
    Faz tempo que quero ler algo do Zambra, mas acabo deixando sempre para depois. Vou começar pelo Formas de Voltar para Casa, já que será discutido em um clube de leitura do qual participo. Vamos ver…
    bjo

    Curtir

    1. Você vai no leituras compartilhadas? Vi que esse vai ser o livro do mês e eu queria muito conseguir participar, mas não estarei por São Paulo na data. Eu gostei muito de formas de voltar para casa! Foi diferente do que eu esperava, mas adorei mesmo assim. A escrita do Zambra é muito gostosa.
      Espero que gostei também 🙂

      Curtir

  2. Faz tempo que adio minha compra de qualquer livro do Zambra. Engraçado é que, lendo a sinopse, esse foi o que me pareceu mais interessante… Melhor repensar, então. (Ou não.) Atualmente, estou esperando a próxima promoção da Cosac Naify. Pelo preço normal, não dá. Provavelmente vou pegar o Bonsai, quando a promoção acontecer, ou Documentos. Esses chilenos são surpreendentes. Caso não tenha lido, Sangue no olho, da Lina Meruane, é excelente. Fica a sugestão.

    Sobre seu comentário no meu post sobre o livro do Murakami. Leia um livro dele, mas não aquele. Existem outros melhores. Se bem que isso que você descreveu sobre ter lido tantos livros dum autor que tudo parece mais do mesmo parece ser o que aconteceu comigo e o Murakami. De repente, sua impressão seria diferente. De uma forma ou de outra, indicaria Norwegian Wood pra começar.

    Curtir

    1. Esse é o que eu estou com mais vontade de ler do Murakami! Provavelmente vai ser o meu primeiro contato com ele também.
      E Zambra é sempre uma delicia de ler. Falam muito bem do Meus Documentos. Acho que qualquer livro dele é ótimo pra começar a ler o autor. Meu problema com a vida privada das árvores foi bem particular, ele funcionou super bem como porta de entrada para um colega meu.
      E com certeza sangue no olho esta na minha lista de mais desejados, parece ser incrível!

      Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s