Diário da queda – Michel Laub

E a minha lista de autores-nacionais-contemporâneos-que-só-descobri-em-2015 ganhou mais um nome!
Fiquei bem curiosa para ler alguma coisa desse autor por causa do canal/instagram Livrogram. As meninas do canal já citaram várias vezes tanto o Diário da queda, quanto o Maçã envenenada e elas sempre falam tão bem e tão empolgadas sobre esses livros, que não tem como não fica curioso.

Pelo o que eu entendi, esse é o primeiro livro de uma trilogia que trata sobre o impacto que alguns fatos históricos causaram na vida de alguém. Ficou meio estranha essa minha explicação, mas ao longo desse post isso vai fazer mais sentido.

Diário da queda é sobre um cara que depois de adulto começa a refletir sobre a vida e todas as reflexões dele têm como ponto central uma história de quando ele tinha 13 anos. O protagonista é filho de judeu e por muitos anos estou em um colégio judeu. Nessa escola eles praticavam bullying pesado contra os alunos que não eram judeus, e um desses alunos era o João. João era um garoto muito simples, que não tinha mãe e o pai pagava aquele colégio com muito sacrifício e um belo dia, esse pai resolveu dar uma festa de aniversário para o filho, até mesmo para agradar aos coleguinhas. Só que não foi uma festa de aniversário qualquer, João teve uma espécie de bar mitzvah. Acontece que os colegas (nada legais) do João combinaram que quando chegasse o momento de jogar o garoto para o alto 13 vezes, eles não iam segurar o João e iam deixar o coitado se estatelar no chão. E adivinha quem era um dos envolvidos nessa brincadeira nada saudável? Pois é, nosso protagonista.

O coitado do João acabou se machucando muito nessa brincadeira e ficou meses afastado da escola e ai depois que o estrago foi feito o protagonista (fico falando assim porque se não me engano, o nome dele não é revelado ao longo do livro) começa a se sentir culpado. Essa história fica tanto na cabeça dele que ele começa a esmiuçar toda a história dele e da família dele para se justificar ou pelo menos encontrar um sentido em tudo aquilo. O peso da culpa é tão grande que ele resolve mudar de escola. Ele o João passam a frequentar uma escola comum, e agora os judeus são a minoria que sofre bullying. Essa inversão de papeis deixa o livro muito mais interessante.

O avô do personagem principal foi um sobrevivente de auschwitz. O protagonista nunca conheceu o avô, mas ele conhecia as histórias através do pai dele. Na verdade, o avô era um cara bem machucado emocionalmente por causa do holocausto e ele não falava muito sobre esse assunto. Quando ele chegou no Brasil, começou a escrever uns cadernos cheios de definições sobre tudo o que ele encontrava.

Leite – alimento líquido e de textura cremosa que além de conter cálcio e outras substâncias essenciais ao organismo tem a vantagem de ser muito pouco suscetível ao desenvolvimento de bactérias. O leite é o alimento perfeito para ser bebido por um homem quando ele se prepara para passar a manhã sozinho.

Apesar desses cadernos não serem mais parecidos com um dicionário informal do que um diário, eles dizem muito sobre a personalidade do avô.

O pai do protagonista ficou obcecado por tudo o que dizia respeito a perseguição dos judeus e o holocausto. Ele leu várias diáriodaquedavezes o livro É isto um homem? e também fez o filho ler esse livro para que ficasse bem claro o quanto os judeus sofreram nos campos de concentração e também para entender melhor o que o avô passou em auschwitz.

A grande pira do livro é que depois de adulto o protagonista começa a refletir que os judeus foram muito perseguidos sim, sofreram muito ao longo da história, mas que naquele colégio durante a pré-adolescência dele os judeus eram a maioria e eles perseguiam todos os que eram diferentes, e eram muito agressivos com essas pessoas. Na primeira metade do livro o foco é nessa força da maioria, sobre como as pessoas perdem o controle e tratam com muita agressividade as minorias. Além disso ele começa a pensar que ele não viveu toda a perseguição que o avô viveu, mas mesmo assim tudo aquilo teve um impacto muito forte na criação dele. Ele sempre ouviu sobre o quanto o mundo sempre odiou e sempre vai odiar o povo judeu, sempre aprendeu a se manter na defensiva e estar preparado para o pior.
O fato do pai viver o trauma do avô faz com que ele crie uma implicância e se afaste cada vez mais do pai. A relação deles é muito dura e complicada e parte da reflexão do livro é para entender o porque eles nunca conseguiram se conectar.

Achei que esse livro conversou bastante com o A morte do pai. Os dois tem o mesmo tom leve, como se os pensamentos fossem chegando aos poucos, como se o leitor refletisse junto com eles para entender melhor a história de vida deles e porque eles têm certas atitudes.

Acho que eu tinha muitas expectativas quando peguei esse livro. No começo eu fiquei um pouco decepcionada. Apesar de ser um tema que me interessa bastante e ter uma proposta muito boa, o autor nçao conseguia me envolver, aquela história me parecia muito fria, mas aos poucos eu fui me apegando mais. A história é pesada, mas o autor conseguiu escrever um livro muito leve e gostoso de ler. O autor mergulha aos poucos nos sentimentos do personagem e talvez por isso tive uma impressão de que o livro seria meio sem graça no começo. Ele volta muitas vezes nos mesmos pontos, como se o personagem ficasse remoendo aquelas coisas, e cada vez que ele cutuca um pouco mais a ferida e o leitor mergulha mais fundo nos pensamentos do protagonista. O texto é bem ironico

O que eu mais gostei nesse livro é essa carga das memórias que são passadas de geração para geração. É muito interessante pensar que a personalidade e a identidade dele tinha como base um fato que aconteceu com o avô que ele nem chegou a conhecer.Também gostei de trazer os judeus em um contexto diferente do que estamos acostumados. Nesse livro ele mostra que apesar de todo o sofrimento que os judeus passaram, quando eles são a maioria eles também são capazes de maltratar os outros. Como se toda a barbárie da segunda guerra não tivesse ensinado nada. Outra discussão do livro é por quanto tempo auschwitz vai ser uma ferida da nossa sociedade? Com o passar dos anos essa história vai ser uma realidade cada vez mais distante e vai perdendo força, até ser uma atrocidade como qualquer outra na história.

Uma coisa engraçada é que uns dois dias antes de começar a ler esse livro eu tinha comprado o É isto um homem?
Meus professores do cursinho sempre recomendaram esse livro e há muito tempo que eu não lia nada sobre a segunda guerra, então achei que era hora de pegar esse livro e ai me deparo com o Diário da queda que explora tanto a história de vida do Primo Levi.

Para ser sincera, ainda estou digerindo esse livro. O personagem é muito bem construído, é muito palpável e a história dele faz a gente refletir muito sobre a construção da nossa personalidade e sobre as nossas atitude. É um daqueles livros que ficam com você depois da leitura acaba. Eu sinto que gosto um pouco mais dele a cada dia. E agora eu estou ainda mais curiosa para ler o É isto um homem? apesar que já fiquei um pouco empapuçada de tanto que o livro foi citado. Quero muito conhecer a história do Primo Levi, mas não vai ser o próximo livro que vou começar a ler. Melhor respirar um pouco e terminar de absorver o diário da queda.

 Diário da queda é um livro super curtinho, tem 151 páginas, e foi publicado pela Companhia das Letras. Quero ler mais coisas desse autor, acho que vou me envolver mais com Maçã envenenada, que é o próximo livro dessa trilogia.

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3 comentários sobre “Diário da queda – Michel Laub

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