O homem duplicado – José Saramago

Falar de José Saramago sempre me empolga muito, porque como vocês devem lembrar, o Saramago é um dos meus autores preferidos (se não for o meu preferido).

O homem duplicado tava na minha lista de livros desejados desde que eu comecei a ler Saramago, mas por algum motivo eu nunca comprava esse livro. Até que esse ano alguém da faculdade resolveu doar alguns livros e esse era um dos títulos da lista.

Se você nunca leu Saramago e não é acostumado a leituras mais densas, eu não recomendo começar por esse. Por mais que eu ame o autor, não podemos tampar o sol com a peneira e ignorar algumas coisas chatinhas dos livros dele. Por enquanto eu só li 6 livros dele, mas já da pra dizer que em geral os livros mais longos são bem arrastados. Não é aquela leitura que você começa a ler e quando percebe já leu 60 páginas. Além desse ritmo lento, os livros estão em português de Portugal, então tem vários “c” em lugares estranhos, tem palavras e expressões que a gente não usa. No começo é meio desconfortável, mas depois de algumas páginas você já ignora essas diferenças e segue a leitura normalmente. Se você nunca leu nada do Saramago e é do tipo de pessoa que tem receio, se sentem intimidado por ele ou sei lá qual for o seu bloqueio, é melhor começar por livros mais curtinhos e mais dinâmicos, como por exemplo As Intermitências da Morte. Se você já é acostumado com livros densos, ai leia tudo do autor sem medo algum.

O Homem Duplicado conta a história de Tertuliano Máximo Afonso, um cara lá pela faixa dos 30 e poucos/40 anos, professor de história e que depois do divorcio entrou numa fase meio depressiva, ou como ele mesmo diria, um marasmo tomou conta dele. O Tertuliano é um cara muito introspectivo, sem muita desenvoltura social, ele não é do tipo que se diverte conversando e interagindo com outras pessoas e tudo isso aumenta ainda mais o marasmo que ele sente. O-Homem-Duplicado-1

Um belo dia, um dos professores do colégio que ele trabalha sugere que ele assista um filme, desses meio bobinhos sem nada demais, mas pelo menos assim ele se distraia e dava risada. O Tertuliano topa essa ideia e no meio do filme ele percebe que um dos atores é exatamente igual a ele.
Essa coincidência junto com o estado de depressão dele vira uma bomba. O Tertuliano se torna extremamente obcecado por esse ator e sua vida passa a girar em torno de descobrir quem é esse cara, onde ele mora, como ele vive…Além de toda a semelhança física, os dois têm exatamente a mesma voz e moram na mesma cidade.
Quanto mais o Tertuliano descobre sobre esse cara, mais perturbado e obcecado ele fica.

O livro vai tratar então do encontro dessas duas pessoas idênticas. Mas quando se trata de Saramago as coisas nunca são assim tão simples. Na verdade o livro é sobre o impacto que essa coincidência causa na vida desses dois homens e nas pessoas em volta deles.
Pra mim esse é um livro sobre identidade. Não sei se identidade é a palavra mais correta, mas sabe aquelas frases de redes sociais no estilo “Somo únicos no mundo” e mimimi? Então, pra mim o livro vai por esse lado. O que nos torna realmente únicos? As vezes ser único não é uma coisa importante, até que você percebe que pode ser facilmente substituído por outra pessoa exatamente igual a você. O quanto essa ideia te perturba?

Por pelo menos metade do livro a gente vai acompanhar toda a pira dentro da cabeça do Tertuliano. Ele sente medo de dividir esses pensamentos com alguém e passa os dias arquitetando planos para encontrar o duplicado dele. Nesse momento só existe uma pessoa que conversa com ele. E esse personagem é um daqueles que mostram toda a genialidade e o espirito das obras do Saramago. Quem conversa com ele é nada menos que o Senso Comum. Todas as ideias que a maioria das pessoas teriam sobre o assunto são discutidas por esse Senso Comum. Ele é um personagem que vai aparecer do nada em momentos do auge da loucura do Tertuliano e vai tentar argumentar e aconselhar essa pobre alma. Eu amei os diálogos do Tertuliano com o Senso Comum.

Na segunda parte do livro a gente acompanha todo o impacto na vida do ator quando ele conhece o Tertuliano. Ele também não vai ter a reação mais leve e a gente passa a acompanhar todos os pensamentos dele e todas as mudanças na rotina desse cara.

A grande graça dos livros do Saramago é que ele não se foca em criar personagens grandiosos. Muito pelo contrario, ele cria personagens com vidas muito comuns, personagens ordinários. É fácil de você se identificar com a vida e os problemas dessas personagens, porque eles poderiam ser qualquer pessoa no mundo. O Saramago mergulha fundo nos pensamentos e sentimentos desses personagens e ainda coloca elementos, como o senso comum, que intensificam ainda mais essa imersão. A gente encontra nessas obras muito dos medos e sentimentos da nossa sociedade em geral. Além disso o Saramago sempre cria umas situações hipotéticas que exploram os valores e as necessidades da nossa sociedade.

Eu não vou contar o que acontece, obviamente, mas o final desse livro é espetacular. Eu tive a mesma reação que em A Caverna. O livro foi se arrastando até que no final eu devorei e queria saber mais coisas. Os dois livros tem um final aberto, você consegue construir o que vai acontecer depois, mas o que você vai imaginar vai depender muito do que você construiu junto com os personagens do livro.

Assim como acontece com todos os outros livros do Saramago, esse não é um livro fácil de digerir. Talvez você não perceba com muita facilidade o que te incomodou tanto, mas esse livro vai mexer com o leitor e te deixar refletindo sobre a história e se imaginando em uma situação parecida por um tempo.

O livro foi publicado pela Companhia das Letras e tem 316 páginas, todas com aqueles blocos perfeitamente retangulares característicos dos livros do Saramago.


E esse livro também está na minha listinha do Desafio Livrada 2015. O Homem duplicado cumpre a minha categoria “Livro que gostaria de ler há mais de 2 anos”, mas também se encaixa em “Livro que virou filme”.

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3 comentários sobre “O homem duplicado – José Saramago

  1. O enredo (pelo menos parte dele) lembrou o de O Duplo, de Dostoievski….na verdade, esse parece ser uma tema recorrente, em se tratando de literatura fantástica. E os questionamentos intrigantes que você fez sobre sermos únicos me lembraram a música do The Who, I’m One, uma das minhas preferidas deles:

    “Every year is the same
    And I feel it again
    I’m a loser, no chance to win
    Leaves start fallin’
    Come down is callin’
    Loneliness starts sinking in

    But I’m one
    I am one
    And I can see
    That this is me
    And I will be
    You’ll all see
    I’m the one”

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