A desumanização – Valter Hugo Mãe

Comprei esse livro por causa do título. Eu não sabia nada sobre a história e já tinha ouvido falar bem do autor, mas o que me chamava atenção mesmo era o título (e a capa também é maravilhosa, mas vou fingir que não ligo para essa parte). Passei alguns meses namorando esse livro pelas livrarias virtuais até que finalmente tomei vergonha na cara e comprei um pra mim. Logo que chegou eu fiz aquele ritual clássico de quando chega um livro novo: olhei cada detalhe da capa, abri o livro para saber como é a diagramação, senti o cheirinho e fui ler a primeira página só para ter uma ideia de como é a escrita do autor (quando é um autor que eu não conheço) ou ter uma ideia da história.

Antes de tentar explicar o que eu senti quando li a primeira página, vou transcrever uma parte do inicio do livro.

Foram dizer-me que a plantavam. Havia de nascer outra vez, igual a uma semente atirada àquele bocado muito guardado de terra. A morte das crianças é assim, disse a minha mãe. O meu pai, revoltado, achava que teria sido melhor haverem-na deitado à boca de deus. Quando começou a chover, as nossas pessoas arredadas para cada lado, ainda vi como ficou ali sozinho. Pensei que escavaria tudo de novo com as próprias mãos e andaria montanha a cima até ao fosso medonho, carregando o corpo desligado da minha irmã.

Éramos gêmeas. Crianças espelho. Tudo em meu redor se dividiu pela metade com a morte.”

Eu não sei nem dizer quantas vezes eu já li esse pedaço. Depois de ler a primeira página eu não consegui mais soltar o livro e só me perguntava porque mesmo eu demorei tanto pra começar a ler Valter Hugo Mãe. Quanto tempo perdido.

Há muito tempo que um livro não me fazia mergulhar tão fundo nos sentimentos da personagem, ou me fazia sentir algum incomodo ou alguma dor física mesmo.  Na verdade só teve um livro que fez isso comigo antes desse e foi Vidas Secas.

Chega a ser difícil falar sobre esse livro porque ele me destruiu e me emocionou muito.

Vamos acompanhar a história da Halla, que no inicio do livro tem 10 anos, vive numa aldeia pequena na Islandia e acaboua desumanização mae de perder a irmã gêmea Sigridur. O livro é recheado de personagens com grandes mágoas do passado, e a morte da Sigridur vai ser a grande mágoa da vida da Halla. A ligação das duas era muito forte, do tipo que uma sentia na boca o gosto do que a outra comia. Elas dividiam todos os sentimentos, dores físicas, aparência e suas personalidades se complementavam. O livro é sobre como a vida dessa garota se transforma com a morte da irmã.

Não sei, essa minha explicação sobre o livro foi muito superficial, mas não tem como explicar de outra forma a história, pelo menos não sem dar spoiler.

Esse é um livro extremamente sensível e além da história ser muito forte, a linguagem do Valter Hugo Mãe potencializa a beleza do livro e os sentimentos que esse livro desperta no leitor.

A escrita do autor é muito poética. Por exemplo, as irmãs Halla e Sigridur são chamadas de irmãs mortas, pelas pessoas da aldeia, sendo que a Halla é a menos morta. A Sigridur também é chamada de a criança plantada. Vou transcrever outro trecho do livro pra ser mais clara sobre a força e a beleza da linguagem do autor. Nesse trecho a Halla ficou menstruada pela primeira vez.

A minha mãe disse que era um pequeno vulcão. São as flores das mulheres. São de sangue. São de lume. Magoam. Todos me falavam sobre passar a ser mulher e sobre o que isso significava de perigo e condenação. Ser mulher, explicavam, era como ter o trabalho de todo do que respeita à humanidade.”

A minha vontade é transcrever milhares de trechos, mas não tem como fazer isso.

Eu me apaixonei por esse livro desde o primeiro capitulo e eu não me decepcionei em nada. O livro segue intenso do inicio ao fim e mesmo você percebendo pelos pensamentos e escolhas da Halla qual vai ser o destino dela, você sempre mantem uma esperança de que ela pode seguir por um caminho diferente.

Esse não é um livro feliz, mas ele é maravilhoso mesmo assim. Ele trata dos sentimentos humanos, dos melhores e dos piores, com tanta sinceridade que não tem como não se tocar com a história.

Se já não bastasse tudo isso, quando acabou o livro fui ler um textinho curtinho de nota do autor e só amei ainda mais a história.

Quando nasci já o meu irmão Casimiro havia falecido. Durante a infância imaginava-o à minha imagem, um menino crescendo como eu, capaz de conversar comigo partilhando os mesmos interesses. Sabia, embora, que estava deitado sob a terra, e pensava que a palavra coração era da família da palavra caroço, uma semente. Achava que os meninos mortos faziam nascer pessegueiros porque os pêssegos tinham pele. O primeiro pêssego que comi foi em idade adulta.”

Eu não vou conseguir falar mais nada sobre o livro. Só vou dizer que com certeza esse virou um dos meus autores preferidos e eu quero ler absolutamente tudo o que ele já escreveu e o que escrever e enfim, tudo. Acho muito difícil  ler um livro melhor que esse até o fim desse ano, to realmente muito apaixonada e encantada.

Alias, semana passada o Valter Hugo Mãe foi em algumas cidades, inclusive em São Paulo e deu palestras, autógrafos e eu sofri muito querendo participar mas a faculdade não deixou. Queria muito ter ido.

O livro foi lançado pela Cosac e a edição ta linda demais. Eu preciso começar a tirar fotos dos livros e mostrar pra vocês essas edições tão lindas. O livro é curtinho, tem 151 páginas, mas mesmo assim acho muito dificil conseguir ler ele de uma vez. A gente se envolve tanto com a Halla e os personagens da aldeia, que é preciso parar as vezes e respirar, se acalmar e voltar a ler.

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