Hamlet ou Amleto? – Rodrigo Lacerda

Vou confessar que antes da metade desse livro eu já estava ansiosa para falar sobre ele aqui no blog. Sabe quando você acha que um livro tem uma proposta incrível e ele é super bem escrito, a leitura é gostosa e enfim, quando você realmente tem vontade de sair recomendando ele até pro poste? Então, foi assim que eu me senti com Hamlet ou Amleto?

Acho que de alguma forma todos nós já entramos em contato com a obra do Shakespeare em algum momento da vida. Seja com algum filme na sessão da tarde, peça na escola e até mesmo o chapolim tem episódio com Romeu e Julieta, crianças da década de 80 ou 90 devem lembrar. A gente nem consegue lembrar quando e como a gente descobriu essas coisas, mas todo mundo sabe como é a historia de Romeu e Julieta, todo mundo já ouviu algumas frases bem famosas como “Ser ou não ser? Eis a questão”.  Apesar de ser parte do nosso conhecimento, existe toda uma aura densa em volta do Shakespeare.

Eu sei que eu já falei aqui algumas (muitas) vezes sobre eu achar besteira isso de ter medo de algum livro, um gênero literário ou um autor. Eu realmente penso isso, mas não vou ser hipócrita, mesmo pensando assim eu tenho um receio de ler Shakespeare. Sempre tive a impressão que esse era um autor complicado, que os textos eram cheios de referências, que eu não ia entender nem 20% da peça. Além disso, eu também não sou uma pessoa acostumada a ler peças de teatro.

Me apegando nessas desculpas, nunca fui atrás de nada pra ler do autor, mas sempre tive curiosidade para conhecer as peças de vingança. E eis que a editora Zahar lança essa edição incrível de Hamlet.

Segundo o autor, Hamlet ou Amleto é um guia de leitura. O livro tem um tom delicioso de conversa numa mesa de bar. Éarte_Hamlet basicamente assim: o narrador começa o livro contando que você, leitor, é um ator que pela primeira vez foi escolhido para interpretar Hamlet, e basicamente você não sabe nada da peça. Então o diretor/narrador senta com você e começa a revisar o texto e fazer uns comentários sobre a peça. Ficou confuso?

O que o Rodrigo fez foi traduzir o texto do Shakespeare e colocar uns parágrafos intercalados com o texto original, explicando o contexto histórico, ou porque o Shakespeare usa verso ou prosa naquele trecho, o uso das rimas, explica a fundo as referências, as possíveis interpretações que os especialistas discutem e faz comparações sobre os personagens e a realidade dos personagens da peça e a realidade do Shakespeare. O leitor também tem uma noção mais concreta do cenário, das possíveis adaptações que os diferentes diretores podem fazer e da posição que cada personagem ocupa no palco.

Tudo isso facilita muito a nossa compreensão e faz com que o leitor mergulhe fundo e se empolgue mais com a leitura.

O livro tem todas as cenas de Hamlet. O Rodrigo só excluiu alguns versos que não prejudicam em nada a peça. Esses versos só não aparecem no livro porque eles já foram mencionados nos parágrafos em que o Rodrigo escreveu discutindo a peça.

O livro tem também algumas informações sobre quando a peça foi escrita, como era a estrutura do teatro na época do Shakespeare e como o texto foi construído. Ele vai discutir o fato de os diretores adaptarem algumas passagens do texto de acordo com o ator que foi escolhido para interpretar o Hamlet. Então como o texto sofreu algumas alterações ao longo dos anos, a gente acaba encontrando algumas coisas meio contraditórias no texto. Por exemplo, no começo da peça a gente fica sabendo que o Hamlet é um jovem que ainda frequentava a universidade. Lá pro final falam que ele na verdade tem 30 anos. Essa segunda informação acaba destruindo todo o desenvolvimento do personagem. Se o Hamlet ainda fosse novinho, todo o amadurecimento dele ao longo da peça seria impressionante e deixa ele muito forte, mas se ele já é um homem de 30 anos, o personagem se mostra na verdade muito imaturo.

Ao longo do livro é como se o Rodrigo conversasse com o leitor sobre as opiniões dele sobre a peça e o que ele acha das opiniões dos críticos e especialistas. Apesar de todo esse diálogo, em momento algum ele entrega o que vai acontecer na historia, o leitor continua se surpreendendo com o desenrolar da peça. Tudo é revelado aos poucos.

O Rodrigo também conversa um pouco sobre as reações esperadas da platéia considerando a cultura e o contexto histórico da época.

O livro tem um tom bem informal e muito leve. É muito gostoso quando você lê um trecho da peça e ai interpreta de um jeito e logo depois vê que a visão do Rodrigo foi parecida com a sua, e se não foi, porque ele pensa diferente. É tudo muito bem explicado, sem se tornar cansativo.

A sensação que o livro passa é que você realmente está conversando com um amigo que sabe muita coisa interessante sobre o Hamlet.

Também é muito legal o fato do narrador considerar que o leitor é o ator que interpreta o Hamlet. Então sempre que necessário, em vez de se referir ao Hamlet como um personagem qualquer, ele se refere ao leitor. Isso nos aproxima e nos envolve ainda mais com a historia.

Esse livro é delicioso. Eu simplesmente não queria largar até terminar de ler. Acho que foi a maneira ideal de entrar em contato com o Shakespeare pela primeira vez.
No final do livro ainda vem uma sessão com o nome ”Elogios, críticas, paródias e anedotas sobre Hamlet”. Nessa parte vamos ler algumas palavras de pessoas como Goethe, Jorge Luis Borges, Freud, Nietzsche e etc, sobre Hamlet. É muito divertido.

Além de tudo essa edição ta muito bonita. Eu adorei a capa e por dentro a folha de guarda é maravilhosa. Eu definitivamente preciso começar a tirar fotos decentes e editar bonitinho para colocar aqui no blog. Enquanto eu não tomo vergonha na cara, você pode ir no meu instagram e ver as fotos com baixa qualidade que eu tiro com o celular.

Enfim, esse livro é delicioso e eu recomendo demais para todos os tipos de leitores que tem curiosidade de conhecer um pouco desse mundo do Shakespeare.

Hamlet ou Amleto saiu pela editora Zahar e tem 286 páginas de muita intriga, duvidas e vinganças.

Não ter lido Hamlet ao longo da vida é como tê-la passado no fundo de uma mina de carvão”

Haruki Murakami

Hamlet ou Amleto

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