Frida, a biografia – Hayden Herrera e um pouco de Virginia Woolf

A obra do biógrafo, nesse nível mais baixo, é  no entanto inestimável; nem temos como agradecer-lhe devidamente pelo o que ele faz por nósm que somos incapazes de viver circunscritos ao mundo intenso da imaginação. A imaginação é uma faculdade que não custa a se cansar e precisa revigorar-se em repouso. 
Mas a alimentação adequada, para uma imaginação exausta, não é a poesia inferior, nem a ficção menor – que na verdade a entorpencem e corrompem -, e simo fato sóbrio, aquelas “informaçoes autenticas” a partir das quais a boa biografia é feita”

Começo o post com um trechinho do ensaio A arte da biografia da Virginia Woolf, primeiro porque esse trecho é bem bonito, mas também porque os ensaios da Virginia Woolf sempre fazem a gente olhar pra obras criadas por mulheres com outros olhos. Hoje além de falar sobre o livro Frida – a biografia, também vou falar sobre alguns ensaios da Virginia que me fizeram mergulhar mais ainda no universo da Frida.

Mas primeiro vamos falar algumas coisas bacanas sobre essa biografia. Já começo dizendo que eu tenho um certo problema com biografias. Me incomoda quando o biógrafo explora demais como foi a infância do biografado, ou alguns detalhes que não são relevantes pro leitor entender e conhecer melhor o trabalho do biografado. Acho que as vezes o excesso de informações deixa a biografia muito arrastada. Então quando eu vi essa biografia enorme da Frida, já comecei meio desanimada, com medo de ser mais uma dessas cheias de informações aleatórias, mas não foi o caso. frida

A Hayden Herrera vai contar sim algumas coisas sobre a infância da Frida, mas só o suficiente pra criar um plano de fundo, uma base para a personalidade que a Frida vai formar. Depois dessa pincelada na infância, a gente se aprofunda na adolescência da Frida porque é nessa fase que ela vive seu primeiro amor e já vamos conhecer alguns traços da personalidade da Frida apaixonada que vamos ver ao longo de toda a vida dela, e também porque aos 18 anos ela sofreu um acidente muito grave em um bonde e seu corpo ficou bem destruído quando uma barra de metal atravessa as costas dela, passando pela pélvis e saindo pela vagina. Acho que se você se interessou por saber mais detalhes sobre uma biografia sobre a Frida, provavelmente você já sabia dessa parte não é mesmo?

Quando eu comecei a ler esse livro eu sabia o básico sobre a Frida. Sabia do acidente, conhecia algumas obras dela, sabia que ela tinha se envolvido com Diego Rivera, mas parava por ai e eu sabia tudo de forma bem superficial. Nessa biografia a Hayden Herrera explora bastante sobre as relações interpessoais da Frida. A gente vai saber como a Frida enxergava o mundo, como ela gostava de se relacionar com as pessoas, o quanto ela se envolvia com as pessoas e também vamos saber muito do que as pessoas pensavam e sentiam por ela. O livro é recheado de cartas que ela enviou para amigos e amantes, trechos de diários de amigos em que ela foi mencionada e trechos da autobiografia do Rivera que explica muito sobre a visão que ele tinha do relacionamento deles. Tudo isso ajuda muito o leitor a construir uma imagem mais real da Frida.

As obras da Frida refletem muito os sentimentos que ela tinha e os momentos que ela vivia e é exatamente por isso que os quadros são tão impactantes e tão intensos. Sempre que acontece alguma coisa que a Frida vai usar como inspiração pra uma obra, ou que pode ajudar a gente a entender melhor um determinado quadro, a Hayden Herrera vai aprofundar bastante e vai explorar todos os detalhes da obra e daquele momento da vida da Frida. Na verdade essa parte eu achei um pouco cansativa. Eu adorei ter uma base bem fundamentada para entender e admirar os quadros da Frida, mas eu achei que algumas coisas foram faladas muitas vezes, os mesmos quadros eram discutidos várias vezes e os pontos abordados nas discussões também ficaram meio repetitivos, mas mesmo assim era bem interessante de acompanhar.

Eu li essa biografia bem devagar pra absorver tudo e ir me deliciando aos poucos. Tem muitas passagens lindas ao longo do livro e eu fiquei bem emocionada. Acho que se eu tivesse lido o livro todo de uma vez eu teria me emocionado ainda mais. Um trecho que eu achei muito lindo e até compartilhei em alguma rede social quando li foi esse aqui em que a autora compara Frida com o Gabo.

Em Cem anos de solidão, Gabriel Garcia Márquez descreve o fio de sangue que escorre do ouvido do assassinado José Arcadio, atravessa toda Macondo e retorna à sua fonte. De maneira semelhante, Frida combinava realismo concreto e fantasia quando retirava de seu corpo as próprias entranhas e as apresentava como símbolos de sentimentos e sensações.”

Acho que só esse trecho já me fez olhar pra obra dela com muito mais amor. Já falei aqui o quanto eu sou apaixonada pelo Gabo e o quanto eu admiro a magia que permeia todo o universo que ele cria. E agora eu tenho a mesma sensação com a Frida. Antes eu achava as obras dela muito brutas, muito agressivas, agora já aprendi a ver com uma sensibilidade muito maior.

Mas não foi só o Gabo e a Hayden Herrera que me ajudaram a admirar mais essa mulher tão forte que foi Frida Kahlo. Uma outra mulher incrível, que viveu na mesma época que a Frida, também vive me abrindo os olhos e me fazendo admirar mais ainda as obras criadas pelas mulheres. Obviamente estou falando da Virginia Woolf.
Há um tempo atrás eu comprei o livro de ensaios O valor do riso (publicado pela Cosac Naify), e eu to economizando muito esse livro, lendo esses ensaios bem aos poucos. Nesse livro tem um ensaio maravilhoso chamado A arte da biografia, que foi de onde eu tirei aquele trecho inicial do post. Essa semana e li um outro ensaio desse livro, chamado Mulheres e ficção e na hora eu lembrei da Frida. Vou copiar um trechinho aqui.

É da mulher comum que a incomum depende. Apenas quando soubermos quais eram as condições de vida da mulher comum- o número de filhos que teve, se o dinheiro que dispunha era seu, se tinha um quarto para ela, se contava com ajuda para criar a família, se tinha empregadas, se parte do trabalho doméstico era tarefa dela-, apenas quando pudermos avaliar o modo de vida e a experiência de vida tornados possíveis para a mulher comum é que poderemos explicar o sucesso ou o fracasso da mulher incomum como escritora.

Quando a gente conhece a vida, a rotina e os sonhos da Frida, os quadros dela fazem muito mais sentido e ficam infinitamente mais bonitos. A gente enxerga todos os sentimentos dela ali expostos naquelas telas. Apesar desse ensaio da Virginia falar sobre mulheres escritoras, acho que ele se aplica perfeitamente ao caso da Frida Kahlo. Eu acho que as pinturas da Frida mexem tanto com a gente justamente porque ela e expressa o sentimento de milhares de mulheres comuns. Mulheres que se sentem limitadas, que se sentem mutiladas, que têm seus sonhos interrompidos de alguma forma. Por mais forte e incrível que a Frida tenha sido, ela foi mais uma mulher que tinha muito amor dentro de si, que se lutou para ser feliz e para fazer quem se relacionava com ela feliz e foi uma mulher que sonhou muito com a maternidade, sonho que nunca pôde realizar. Os sentimentos retratados ali poderiam facilmente ser de qualquer outra mulher no mundo. A Frida acaba representando a força e a sensibilidade de todas nós.

Eu já tava com essa ideia na cabeça ao longo da leitura da biografia, mas foi com os ensaios da Virginia Woolf que a ideia se concretizou. A Virginia tem esse poder de fazer a gente criar uma admiração ainda maior por artistas que já admiramos e por isso acabamos gostando ainda mais da própria Virginia. Quando a gente conhece os ensaios dela é impossível não ficar refletindo sobre o que já lemos antes. Ela abre nossa mente, coloca um dedo na ferida e faz o leitor ter uma nova visão de mundo. Eu queria ter feito um texto mais aprofundado nas impressões que a Virginia me fez ter da obra da Frida. Ela realmente me deixou muito mais sensível e me fez admirar muito mais o trabalho da Frida. Mas é muito difícil por tudo em palavras e o texto ficaria enorme. Quem sabe não fica aqui um gancho para um próximo texto mais subjetivo e mais aprofundado nesses sentimentos que a Virginia desperta em mim.

Frida – a biografia foi publicada pela editora Globo e tem 624 páginas, entre elas várias páginas com fotos de diferentes momentos da vida da Frida e fotos dos quadros citados ao longo da biografia.

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5 comentários sobre “Frida, a biografia – Hayden Herrera e um pouco de Virginia Woolf

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