A briga dos dois Ivans – Nikolai Gogol

Se você gosta de ler é muito provável que já tenha sentido ou pelo menos já tenha ouvido falar da famosa ressaca literária. Esse é um fenômeno comum na vida dos leitores e que chega assim sem mais nem menos. Pode acontecer porque você leu um livro tão bom, que tirou seu chão e você duvida que vai ler alguma outra coisa tão boa na vida, mas também pode ser o contrário. As vezes você pode ter lido um livro muito ruim que te fez perder a fé na humanidade, ou ter escolhido uma sequencia de livros sem sal que te desanimaram. Os motivos são vários, mas os sintomas são sempre os mesmos, a gente perde o tesão pela leitura. Você pega um livro e… é… talvez seja mais divertido olhar pro teto mesmo.

Pra sair dessa fossa não existe uma receita definida, a gente precisa buscar um livro que renove nossas energias e esperanças, que faça a gente lembrar porque ler é tão gostoso.
Falei toda essa lenga lenga porque eu estava numa bela ressaquinha. Depois de ler O sol é para todos, os outros livros me pareceram menos atraentes. Além disso passei por uma frustração por não me identificar com o Pretérito Imperfeito, livro que ganhei do autor. Enfim, estava broxada da vida e não conseguia nem ter vontade de ler. E foi nesse momento da vida que eu peguei pra ler A briga dos dois Ivans.

A briga dos dois Ivans na verdade é uma novela russa. Eu li numa edição muito fofa que faz parte da coleção A Arte da Novela, que é exclusiva da livraria cultura. A coleção é toda minimalista. Os livros são bem pequenos, com papel bom e uma diagramação simples, mas bem bonitinha, com páginas numeradas na lateral. a_briga_dos_dois_ivans_1402278906p

Nessa história vamos conhecer dois vizinhos que eram amigos de longa data, Ivan Ivánovich e Ivan Nikíforovitch.

A história é narrada em terceira pessoa por um antigo morador de Mírgorod, cidadezinha pequena e pacata em que viviam os dois Ivans. Ele narra a história de maneira muito leve, como se conversasse com o leitor, e vai contar que o Ivan Ivánovich era um cara alto, magro, que gostava de causar boa impressão e sempre falava forma muito sofisticada, muito eloquente. Em contrapartida, o Ivan Nikíforovitch era um homem baixinho, gordo e que tinha muito menos frescura. Pra deixar clara a diferença, quando eles se encontravam e um ia oferecer rapé para o outro, o Ivan Ivánovich falava “Poderia fazer o obséquio” enquanto Ivan Nikíforovitch já falava logo “Faça o favor”. Enquanto um dava mil voltas para falar alguma coisa, o outro já mandava logo de uma vez, de forma direta e sem mimimi.

Um belo dia Ivan Ivánovich descobre que Ivan Nikíforovitch tem uma bela arma. Por acreditar que Ivan Nikíforovitch nunca vai usar aquela arma tão bonita, Ivan Ivánovich vai até a casa do vizinho para tentar comprar a tal arma. Como pagamento oferece uma porca parda e dois sacos de aveia. E ai a bagunça toda começa. Um se sente ofendido com a oferta, o outro insiste demais, o primeiro perde a paciência e começa a ser grosso e o segundo sai ofendido e magoado com o amigo.

Por uma coisa assim idiota, uma amizade de décadas parece chegar ao fim. Não vou entrar em mais detalhes do enredo por razões obvias.

Essa novela é muito engraçada. O livro é cheio de notinhas de rodapé explicando a origem de algumas palavras e ai você entende alguns detalhes dos nomes de alguns personagens e entende melhor as ofensas trocadas entre os dois ex-amigos (isso existe?).

Apesar de ter muito drama e as situações serem meio exageradas as vezes, não achei irritante que nem os dramas do Fomá Fomitch (se você não entendeu, leia meu post sobre A aldeia de Stepántchikovo e seus habitantes). Dessa vez eu realmente dei risada e me diverti com as situações.

A história é bem simples, não tem muito o que explorar, mas até por isso é um ótimo livro pra curar a tal ressaca literária. A escrita do Gogol é uma delicia. Você realmente é transportando para Mírgorod e mesmo a história sendo tão curtinha, você se envolve com os personagens e com o estilo de vida daquelas pessoas.

Esse também é um ótimo livro pra quem ainda acha que escritores russos são obrigatoriamente difíceis. Não é porque eles têm um alfabeto com aqueles símbolos estranhos ou dão apelidos pras pessoas que são mais difíceis que os nomes reais, que a escrita deles é complexa.

A briga dos dois Ivans é um livro super curtinho, tem só 91 páginas e dá pra ler em uma sentada só. Alias, livros de uma sentada só, sempre funcionam muito bem para curar minhas ressacas literárias.


Pra quem ta participando do Desafio Livrada, fica mais uma opção para a categoria Um livro escrito antes do século XX. Essa categoria ta ostentando boas opções aqui no blog.

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