Pretérito Imperfeito – Gustavo Araujo

Agora em Julho o Literateca completou 7 meses. O blog ainda é muito novo, ainda ta em fase de formação, digamos assim, eu ainda estou aprendendo a administrar as coisas por aqui, a escrever sobre os livros que eu leio e definindo qual é o conteúdo que eu quero pro blog.
Por que eu estou falando isso? Porque lá nos primórdios dos primeiros posts, o Gustavo comentou ou curtiu, ou os dois, algum post e desde então ele sempre se manifestava e dava a opinião dele sobre os meus textos.
Em Abril, ele entrou em contato comigo porque ele queria que eu lesse um livro que ele tinha acabado de publicar. Eu nunca fiz parcerias, eu tenho um certo receio na verdade porque a leitura fica com uma responsabilidade, uma obrigação que eu não quero. Eu gosto de ler e me sentir à vontade pra ser bem sincera sobre o livro aqui no blog. Como o Gustavo me deu muita liberdade e flexibilidade acabei topando e ai eu recebi o Pretérito Imperfeito.

Então chega de enrolar e contar historinha, e vamos falar sobre o livro. Nessa história existem três personagens que são a base do livro: o Toninho, a Cecília e o seu Pedro Vieira. O Toninho e a Cecília são pré-adolescentes, os dois têm 13 anos, e o Pedro é o pai do Toninho. Apesar dos três serem bem importantes, o grande personagem principal é o Toninho.

Cada um desses personagens vai se desenvolver de forma isolada. A estrutura do livro é basicamente um capitulo com uma narrativa sobre o cotidiano do Toninho e um capitulo da Cecília em formato de cartas. O livro segue assim até aproximadamente a metade, quando algumas coisas começam a mudar. Uma dessas mudanças é que na segunda metade do livro vamos ter também capítulos sobre o passado do seu Pedro.

Parte da historia se passa em 1969 e a outra parte se passa na década de 1930.  Esse detalhe da história tinha tudo pra me prender. Não sei se já falei aqui no blog, mas adoro ler coisas sobre ditaduras em geral. Então lá em 1930 era a Era Vargas, já tava rolando ditadura no Brasil, já rolavam uns interrogatórios violentos, mas era tranquilinho se comparado com a situação do Brasil em 69. Fim de governo do Costa e Silva, o ano termina com a eleição do Médice, o país naquela confusão, as atenções divididas entre atentado contra o Marighella e a copa do mundo, enfim… uma loucura. Pelo prefácio do livro eu achei que a história ia abordar bastante o impacto desses governos na vida das crianças (13 anos pra mim é pirralho, desculpa). Acontece que todo o contexto histórico de 69 é ignorado e eu fiquei até pouco antes da metade do livro muito ansiosa e com esperanças de que ele ia discutir alguma coisa disso, mas não rolou nada. A parte da Era Vargas é mais trabalhada. O seu Pedro foi um investigador do governo então vai ter um pouco sobre a rotina dele no livro.

No começo do livro eu tive alguns problemas pra me envolver com os personagens, eu demorei um tempo pra acreditar na Cecília, mas a leitura fluía melhor e eu consegui entrar naquele mundo. As cartas da Cecília me incomodavam porque eram meio estranhas. Apesar de começar “Queria Carol…”  e terminar com ela se despedindo, eu achava as cartas com mais cara de diário do que de cartas. A Cecília não dialogava com a Carol. Mesmo que a gente não leia as respostas, é de se esperar que role uma conversa, que a Carol questione, conte alguma coisa, enfim, que ela interaja de alguma forma. Isso não acontecia. A Cecília nem se dava ao trabalho de perguntar como a Carol estava. Depois eu entendi o porque desse formato, mas acho que se fossem páginas de um diário em vez de cartas, seria mais natural e mais convincente. Ok, apesar disso a leitura corria tranquila até que na metade do livro a história que tinha os pés na realidade começa a virar uma fantasia. Não vou entrar em detalhes sobre o enredo nessa parte pra não ser spoiler, mas isso me broxou um tanto.

Eu acho que o problema é que a história não dava espaço pra essa fantasia. Acho que a intenção era deixar a história meio mágica, mostrar que tudo é possível se você acreditar com muita força. Mas eu não gostei. Não ficou convincente e pra mim acabou estragando muito da história. Alguns pontos do enredo vão se entrelaçar graças a essa magia, mas eu preferia  que eles corressem em paralelo em vez de se interligar. Essa parte do post ficou confusa, eu sei, mas é porque eu não quero contar o que vai acontecer na história. Não sou se me afetar com spoiler, acho besteira deixar de ler um livro, ver um filme/série por causa de spoiler, mas isso é uma coisa muito minha, eu sei que muita gente realmente se incomoda e eu acho que se eu detalhar a história desse livro a graça se perde.

Esse não foi um livro que eu amei, e na verdade o final da leitura foi bem arrastado porque eu não queria que a história seguisse pelo caminho que seguiu. Acho que eu demorei umas três semanas pra ler esse livro, mesmo ele sendo curto e com uma fonte grande, porque eu desanimei com a maneira como o livro virou uma fantasia. Talvez se desde o começo eu soubesse que era uma fantasia e não mais um romance com um contexto histórico, eu teria me soltado e encarado o livro de outra maneira, não sei.

No fim das contas o meu personagem preferido foi o Pedro Vieira porque ele era o personagem mais complexo e o que fica o tempo todo preso à realidade. A história dele dentro da policia ficou bem bacana, com alguns conflitos pessoais e a gente conhece um lado dele que o Toninho nem imagina que existe. O Toninho também me envolveu um pouco porque ele curte muito ornitologia. Faz parte da rotina dele sair pela cidade de bike, com um guia de aves na mão (não era bem um guia de aves, mas era quase isso) e observar as aves da região. Essa parte da história me remeteu a um campo delicioso que eu tive na faculdade lá no Pantanal, e por isso eu me sentia muito bem quando o Toninho ia observar as aves.

Acho que eu não sou o tipo de leitora pra esse livro. Ele tem uma pegada mais jovem, mais juvenil mesmo e como disse o Gustavo, um publico mais sonhador que gosta de acreditar no impossível. Eu acho legal fantasia, mas eu não tenho esse perfil de acreditar que tudo pode acontecer e me deixar levar pela beleza do mundo dos sonhos e da magia. Outra coisa bacana desse livro é que a Cecília gosta muito de ler, mas ela só tem contato com literatura nacional. Então ela fala até de livros muito pesados e densos pra idade dela, mas ela gosta então ok. O livro é recheado de referencias a clássicos da literatura nacional.

Se você achar que se enquadra no público pra esse tipo de literatura, vale muito a pena conhecer o trabalho do Gustavo. No blog dele tem textos dele e textos de outras pessoas também, mas lá você já consegue ter uma ideia do trabalho dele. Então entrem aqui pra conhecer o Entre Contos.

Pretérito Imperfeito tem 279 páginas (mais algumas com um posfácio) e foi publicado pela editora Caligo. Se quiser comprar o livro, vou deixar aqui o link da loja da editora. O livro também tem uma página no Facebook, clique aqui pra conhecer.

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3 comentários sobre “Pretérito Imperfeito – Gustavo Araujo

  1. Queria agradecer publicamente à Natália pela resenha do Pretérito Imperfeito. É comum que blogues literários cobrem por algo do tipo — não estou fazendo juízo de valor — de modo que fazê-lo de graça, sem me conhecer, sem saber nada de antemão, demonstra claramente o caráter ímpar da Natália. Como autor, eu não poderia esperar nada melhor do que uma opinião bem fundamentada.

    Sim, o livro tem uma pegada fantástica (no sentido de fantasia), de modo que pessoas mais céticas poderão se sentir um pouco desconfortáveis com o desenrolar da trama. Por outro lado, tem agradado quem aprecia o insólito — os sonhadores — já que o enredo mostra que o impossível é, muitas vezes, algo auto-imposto e que enfrentá-lo requer um salto no escuro.

    De qualquer maneira, convido a todos que visitem a página do livro lá no facebook. Para quem aprecia o fantástico, a visita é mais do que recomendada 🙂

    Um abraço a todos e, mais uma vez, obrigado, Natália.

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    1. Só tenho a agradecer por toda a consideração, pela atenção e principalmente pela paciência comigo 😛
      Fiquei bem feliz com essa experiência, só fiquei chateada por não ter me envolvido mais com o livro. Mas devo dizer que eu ainda penso muito nos personagens, como você deve imaginar penso principalmente no Pedro e no Toninho, então quer dizer que o livro acabou me marcando.
      O blog sempre estará disponível para qualquer divulgação, apoio ou o que for que você precisar e quiser fazer junto com o Literateca.

      Beijos

      Curtido por 1 pessoa

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