O sol é para todos – Harper Lee

Em tempos em que o discurso de ódio cada vez ganha mais força, entrar em contato com obras como essa é fundamental.

Esse post fecha a minha participação no projeto #LendoHarperLee e ele vai ter um formato um pouco diferente do usual. Esse livro levanta tantos pontos importantes e da margem pro leitor refletir sobre tanta coisa, que eu quero focar mais nesses aspectos.

Esse livro vai tratar de temas extremamente atuais e posso dizer que durante a história três palavras ou assuntos muito recorrentes nas redes sociais vão aparecer na sua cabeça: empatia, racismo e tentativas de linchamento de supostos criminosos.

Quando eu digo supostos criminosos é porque é muito frequente a gente encontrar noticias ou ouvir uma história de alguém que foi acusado de um roubo e que por isso as pessoas que estavam num determinado lugar e ouviram a acusação resolvem que é a hora e o lugar certo de “acabar com essa raça de bandidos” e “obter justiça pelas próprias mãos” e em momento algum existe a preocupação em saber se aquela história é real ou não.

Essa relação de sair julgando as pessoas que vivem à margem de uma sociedade é muito presente no livro o tempo todo.

O livro é sobre amadurecimento de crianças e o contato da inocência das crianças com a crueldade dos adultos. A história é narrada por uma senhora que por causa de uma conversa com o irmão dela, começa a relembrar como foi um período da infância dos dois. Então a Scout vai contar pra gente as experiencias que eles viveram ao longo de um período de 3 anos.

No inicio do livro a Scout tinha 6 anos e o Jem 10, e vamos acompanhar o cotidiano deles. Como eram as brincadeiras, a rotina na escola, a relação com o pai, com os vizinhos e com a empregada deles, a Calpúrnia (que por sinal é um personagem muito legal). O Jem e a Scout são muito ligados. A Scout é aquele tipo de criança meio pentelha sabe? Pergunta tudo, sai falando o que pensa sem ter medo e se ofende sempre que é chamada de “menininha”. Ela acha que esse termo é pejorativo e por isso se esforça em não ser menininha. Na verdade ela vai bater de frente sempre que falarem que “mocinhas não devem se comportar assim”.

Essas crianças viviam em uma cidadezinha no Alabama chamada Maycomb e lá existia uma cultura (não sei se é essa a palavras, mas não achei outra) muito forte, um sentimento muito forte por fazer parte dos estados confederados (lembra lá da aula de história? A guerra da Secessão?). Então só por esse detalhe a gente já sente uma discriminação muito forte. Era uma barreira muito visível que dividia a porção branca da porção negra da população dessa cidade.
Mas as divisões jamais parariam por ai. Nessa cidade o normal era sair rotulando tudo e todos. Então se você não era muito amigo dos confederados, você era julgado. Se você pertencia a família X, então quer dizer que você é pobre, que é orgulhoso, que é isso ou aquilo. Se você é da família Y, então você é tradicional, você é uma pessoa de respeito e etc. E assim vai. Todo mundo tinha um rótulo, seja baseado na cor da pele, seja baseado no lugar que nasceu, seja pelo sobrenome. O estranho ali era não sair tirando conclusões precipitadas sobre as pessoas.

E é nessa cidade que vai acontecer um estupro e um negro vai ser acusado. Em um primeiro momento ninguém se preocupou em saber como foi que esse crime aconteceu. Ninguém se preocupou se tinha provas, se tinha testemunha… nada. Todo mundo aceitou como verdade absoluta que o negro era culpado porque ele é negro. Faz parte da personalidade do negro ser criminoso (segundo a mentalidade dessas pessoas) pra que se preocupar em investigar?

Esse crime é muito importante porque o pai da Scout e do Jem, o Atticus, acaba sendo escolhido como advogado de defesa do Tom Robinson (o negro acusado). O Atticus se sente com uma obrigação moral de defender esse cliente, é uma causa muito importante pra ele. Ele realmente acredita na inocencia do Tom e ele deixa muito claro pra Sacout e pro Jem, que tempos difíceis virão para a família deles, e por isso eles vão precisar ser fortes e ter muito claro que eles estão fazendo o melhor e o correto.

Nessa parte do livro é muito explorado o efeito de massa nas pessoas. Sabe aquela consciência de multidão? Todo mundo acredita com tanta força em uma história que as pessoas perdem a linha e ultrapassam qualquer limite para defender aquela verdade que elas acreditam. Essas crianças vão ser muito humilhadas por causa da relação do pai com o Tom Robinson, elas não vão entender direito o porque, vai ser um período muito nebuloso, confuso e violento. E elas também vão presenciar situações horríveis. Em um determinado momento um grupo de moradores decide que a justiça é muito lerda e que eles precisam resolver o crime com as proprias mãos e vão atrás do Tom Robinson para linchar o moço. Olha isso que pesado! E nesse momento as crianças estavam observando tudo de longe e eles acabam interferindo naquela situação. Tem um certo risco do pai deles ser agredido junto com o Tom Robinson e a Scout entra no meio da confusão e começa a falar sobre ela estudar com os filhos de um daqueles homens e abre os olhos dele pro fato de que ali é uma outra família mas que não são pessoas tão diferentes dele.

O tempo todo o livro brinca com essa agressividade da sociedade contra a inocência das crianças. Como essa inocência e a bondade das crianças pode ser o caminho pra acabar com o preconceito.

Outra jogada que aparece no livro é com um personagem chamado Boo Radley. O Boo é um cara que não é visto fora de casa desde a adolescência. Na verdade ninguém da família Radley convive com os outros vizinhos e por isso são taxados como perigosos, como malucos. E isso na cabeça das crianças acaba causando medo. Tudo o que eles escutam sobre o Boo é tão mal explicado, que eles ficam com medo daquela pessoa. Então é aquela história do medo do desconhecido, sabe? Que nada mais é do que um dos primeiros passos para o preconceito.

Esse foi o primeiro livro na história da galáxia que me fez chorar. E esse livro me fez chorar pela sensibilidade dos personagens. O Atticus é um pai maravilhoso. Vi muita gente na internet falando que ele é um pai ausente. Sim, ele passa pouco tempo com os filhos, mas ele tem uma participação muito grande na formação do caráter dessas crianças. Ele o tempo todo ensina aos filhos a importância de se ver no lugar do outro pra entender as atitudes e as palavras daquela pessoa, vulgo a importância da empatia. Ele ensina o tempo todo o valor do respeito, da compreensão e dos bons sentimentos em geral. Ele é incrível, e a influencia que ele tem nas crianças é enorme e é muito bonito acompanhar a relação dessa família.

A questão do racismo é muito importante sim nesse livro. Mas eu acho que falar só do racismo é muito superficial. O livro vai mostrar milhares de preconceitos embutidos na nossa sociedade e que a gente aceita, que passa batido. E ele vai mostrar que quando a gente ignora o problema, a situação sai do controle e ganha uma força descomunal.

Apesar de ser uma historia que se passa na década de 1930, os problemas desse livro são cada vez mais atuais. Ultimamente a gente ignora os nossos preconceitos e fica só julgando o quanto os outros são preconceituosos. “Eu não sou racista, até uso a hashtag somostodosmaju, eu faço minha parte pra mudar o mundo. Já você…”. Enquanto a gente ignorar, mesmo que seja um traço minimo de preconceito que exista dentro da gente, e não to falando só de racismo, eu to falando de preconceito contra negro, contra gordo, contra classe social, contra gays, contra trans, contra gênero, contra quem gosta da musica x ou da y, preconceito contra qualquer coisa que seja diferente do que é seu. Enquanto a gente ignorar que somos sim preconceituosos em algum ponto, esse problema só vai aumentar e o sentimento de ódio na nossa sociedade vai sair cada vez mais do controle. Então essa é uma leitura essencial pra fazer você por o pézinho no chão e parar pra pensar o quanto você sai taxando todo mundo por ai.

Da pra falar muito mais coisas sobre esse livro, mas o post já ta enorme. Se você leu até aqui, obrigada pela paciência. E se você leu o livro, vamos discutir sobre esses e outros pontos da história.

Apesar do livro tocar em tantos temas importantes e pesados, a escrita é muito leve e a história é muito bonita. É um livro extremamente gostoso de ler.

A edição que eu li foi lançada esse ano pela editora José Olympio e tem 349 páginas. Eu simplesmente não consegui soltar o livro até terminar de ler, vale muito a pena conhecer essa história.

Anúncios

3 comentários sobre “O sol é para todos – Harper Lee

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s