A aldeia de Stepántchikovo e seus habitantes – Fiodor Dostoievski

E com muita, MUITA, paciência eu finalmente terminei de ler esse livro. Eu gostei do livro, depois que ele terminou eu até percebi algumas coisas que durante a leitura eu perdi, mas essa leitura foi de emoções intensas.

Tenho uma meta de parar de enrolar e ler Crime e Castigo esse ano. Em 2013 eu fiquei na duvida entre ele e Anna Karenina (que por sinal é um dos meus livros favoritos da vida, com direito a tatuagem com citação do livro) e desde então ele está na fila de espera. Não sei porque eu encanei que ia ser uma leitura muito pesada e pra perder o mimimi eu comecei a ler Dostoievski por esse bendito livro, A aldeia de Stepántchikovo e seus habitantes.

Nesse livro nós vamos conhecer o Serguei, que é um jovem que está na faculdade e leva uma vida tranquila em São Petesburgo. Ele é sobrinho do coronel Iegor Ilitch Rostániov, que é o herdeiro da aldeiaDownload-A-Aldeia-de-Stiepantchikov-e-Seus-Habitantes-Fiodor-Dostoievski-em-epub-mobi-e-pdf de Stepántchikovo, e por isso parte da infancia do Serguei foi lá nessa aldeia com o tio. O Serguei considera muito o tio, eles tem uma ligação forte e um dia o coronel manda uma carta para o Serguei pedindo para que ele voltasse para a aldeia e se casasse com a perceptora dos filhos do coronel, carinhosamente chamada de Nástienka. (adoro os nomes das personagens nos livros Russos)

Acontece que a vida do coronel ta uma zona graças ao personagem que eu mais odiei na minha vida. Juro, eu nunca me irritei tanto com uma personagem. A mãe do coronel, que é conhecida como generala, quando ficou viúva decidiu que uma criatura chamada Fomá Fomitch era a melhor pessoa do universo. Desde então o tal do Fomá manda e desmanda na vida de todo mundo e vai viver para tumultuar a vida das pessoas que dão o azar de conviver com ele.

O Fomá era um zé ninguém, que num momento de fragilidade da generala, conquistou a confiança da velha e passou a ser um ícone da moral, da inteligencia e de tudo o que há de bom no mundo. Mas na verdade ele é um belo de um parasita. A vida dele é desmoralizar o coitado do Iegor Ilitch, de falar o quanto ele é um péssimo filho, o quanto ele não tem conhecimento de mundo, o quanto ele é egoísta. A grande ironia é que todas essas características na verdade são do Fomá e não do Iegor Ilitch.

E o Fomá também ama fazer um drama. Sempre que o coronel convida alguém que pode desmascarar que o Fomá não é nenhum erudito, já se inicia toda uma palhaçada do Fomá falar que vai embora por não ser bem vindo, a generala passa mal, as senhoras agregadas começam a chorar e acudir a generala, todos criticam o coronel e a casa vira do avesso.

Lógico que vamos ver essa cena logo que o Serguei chega na casa do tio.

A história é bem leve e vamos acompanhar o desenrolar desse casamento arranjado entre o Serguei e a Nástienka. A trama central do livro acontece em mais ou menos 48h, e tudo acontece muito rápido e de forma muito intensa. A sensação que dá é que estamos lendo uma peça de teatro e não um romance. O texto é construído de uma forma que você consegue imaginar a posição exata de cada personagem e como é cada detalhe do ambiente.

A grande graça desse livro é que o Fomá passa vergonha do inicio ao fim. Como eu falei ele se considera um grande erudito e por isso ele vive fazendo referencias. Mas ele sempre confunde todas as referencias e ninguém percebe ou pelo menos finge não perceber. A edição que eu li é da editora 34 e é cheia de notas de rodapé explicando as referencias que o Fomá usa, então você não vai precisar de uma bagagem para entender as gafes dessa criatura.

Acho que pelo meu texto vocês não vão conseguir imaginar o quanto o Fomá é cansativo. Ele se intromete na vida de todos, ele humilha absolutamente qualquer pessoa que cruza o caminho dele. Ele não vai poupar em nada o coronel que tá lá recebendo e sustentando ele e muito menos os Mujiques mais simples (que se você lembra das aulas de história, são os camponeses). Ele vai espionar a vida das pessoas daquela pequena aldeia, vai criar intrigas, fazer fofoquinhas e principalmente vai fazer muito drama sobre o quanto ele não é amado.

Eu comecei a ler esse livro no final de abril e eu não consegui ler de tanta raiva que eu sentia do Fomá. Mas não é só ele o problema, minha raiva é que todo mundo acabava fazendo as vontades desse infeliz. Minha vontade era entrar no livro e sacudir o coronel até ele perceber o quanto o Fomá fazia ele de besta. Acabei deixando o livro de lado e retomei a leitura agora em Julho e ai tudo fluiu e eu até dei risada de algumas situações.

Pra mim o livro faz uma grande crítica a essas situações em que existe uma hierarquia forjada para humilhar e constranger as outras pessoas e mostrar que isso não faz sentido nenhum. Na verdade o coronel é uma pessoal muito melhor que o Fomá, porque ele trata todos com igualdade e sempre busca ajudar todo mundo, mas em momento algum essas características são reconhecidas pela generala e suas amigas. Apesar das nítidas falhas de caráter do Fomá ele sempre sai como um exemplo a ser seguido.

Eu gostei do livro, adorei o final, mas eu odiei tanto o Fomá Fomitch que eu acabei gostando muito menos do livro do que eu poderia gostar. Ficou confuso, eu sei, mas meu sentimento por esse livro é confuso mesmo. Apesar desse primeiro contato ser assim meio nebuloso, eu gostei muito do Dostoievski. Ainda to conhecendo a literatura russa, mas acho genial o modo como eles exploram a sociedade e cutucam fundo as falhas dos costumes da época. E também acho genial o fato desses romances se manterem atuais. Você com certeza vai viver situações em que vai reconhecer um “Fomá Fomitch” difamando um “coronel” ou você pode ser um deles, enfim. Acho sempre muito gostoso encontrar livros assim.

Como eu falei a edição que eu li é da Editora 34 e tem várias ilustrações e notinhas que ajudam muito a leitura. O livro tem 352 páginas e exige que você saiba ter paciência com pessoas dramáticas e leve essas situações com bom humor.


Esse livro cumpriu a categoria Um livro escrito antes do século XX no Desafio Livrada 2015.
Essa categoria já podia ter sido preenchida pelo livro As surpreendentes aventuras do Barão de Muchausen, mas por uma questão de orgulho eu reservei esse livro do Dostoievski para a categoria.

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