O que amar quer dizer – Mathieu Lindon

Se você estiver andando pelos corredores de uma livraria, ou fuçando em alguma livraria on-line e se deparar com esse livro, você pode se sentir seduzido ao ler na sinopse ou na contracapa do livro que está é uma história sobre a amizade entre Mathieu Lindon e Michel Foucault. Só por ter um relato de quem realmente foi Foucault o livro já seria interessante, mas não se deixe enganar por essa sinópse, o livro vai muito além.

O que amar quer dizer é o um livro sobre famílias. E por famílias entenda que eu me refiro tanto a família biológica quanto a família que construímos com nossos amigos.

Lógico que um dos objetivos do livro realmente era fazer uma homenagem ao Foucault, mas o livro não se resume a isso.

Logo no começo do livro do livro, Mathieu vai contar que ele é filho de Jérôme Lindon, editor e fundador da editora Éditions de Minuit. Por ser filho de um cara tão influente no mundo literário, desde pequeno Mathieu conviveu com grandes nomes da literatura. Inclusive, o melhor amigo do pai dele foi Samuel Beckett.

A relação entre os dois sempre foi muito seca. O pai era exigente e não sabia transmitir todo o amor que sentia para o filho. Por estar extremamente ligado à literatura, Mathieu pretendia ser escritor, mas não se sentia muito capaz.
Sua adolescência foi dedicada quase que plenamente a leitura. Ele nunca teve muitos amigos e nem muita desenvoltura social, por isso buscava abrigo na leitura.

Os livros me protegem. Sempre posso me refugiar neles, imune a todo risco, como se eles criassem um outro universo, inteiramente à parte do mundo real.

Aos 23 anos, ele se envolveu com uma moça que acabou apresentando ele para outros rapazes com quem ela saia e eles passaram a viver uma relação que era muito nova para Mathieu. E foi através desse grupo que ele conheceu Michel Foucault.

Ele conviveu com Michel Foucault por 6 anos e esse período foi muito intenso. Foi nesses anos que ele teve suas primeiras relações homossexuais e viveu grandes paixões, mesmo que nem sempre elas durassem muito.Também foi graças aos novos amigos que ele entrou em contato com as drogas. Começou com LSD, usaram um pouco de ópio parao-que-amar-quer-dizer aliviar o final do efeito do LSD e chegaram até a experimentar heroína. Essas experiências foram muito importantes porque os amigos se sentiam vivendo momentos de extrema intimidade enquanto estavam sob o efeito das drogas. Talvez isso tenha unido eles muito mais. O momento em que eles se drogavam juntos, eram momentos em que eles transcendiam.

Nada mais pedagógico que o LSD para tornar alguém melômano, vivemos intensamente a música.

Eles passavam as tardes no apartamento de Michel, e esse apartamento virou quase um lugar sagrado para Mathieu. O apartamento era conhecido como Rue de Vaugirard e era lá que os amigos jantavam, conversavam sobre o que estava acontecendo em suas vidas, assistiam filmes, ouviam música e usavam drogas.

Mathieu vai contar como era conviver com Michel, mas sem entrar em muitos detalhes. Ele menciona algumas conversa  com Michel, mas de forma muito superficial e sempre para mostrar como Michel encarava a vida de forma leve, com generosidade e empatia. A imagem que eu fiquei é sempre do Michel com um sorriso no rosto e com palavras doces.

A morte de Michel vai ser um grande marco na vida de Mathieu. A AIDS vai levar outros amigos, e alguns outros vão morrer por outras razões, mas nenhuma morte vai ser tão marcante quanto a de Michel.

Anos depois, Samuel Beckett morre e o pai de Mathieu passa a entender a dor que o filho sentiu ao perder um grande amigo. Depois da morte de Michel, Mathieu passa a traçar um paralelo entre a relação dele com Foucault e a relação dele com o pai.

Muitas coisas que eram dele [Michel] tornaram-se naturais em mim, e eu sou-lhe grato por isso. É a diferença estatuária entre um amigo e um pai, diferença essa cujo gosto amargo este último é obrigado a sentir.

Ele diz que Foucault fez transformações em sua vida muito mais marcantes e intensas que o próprio pai, até pelo fato de que Mathieu nunca conseguiu se aproximar muito do pai. A amizade com Michel ajudou ele a ter uma nova compreensão do mundo e isso inclui a relação dele com o pai. Ele passou a ter um pouco mais de generosidade e se dedicar mais a entender como as outras pessoas lidam com os próprios sentimentos.

É bem bonita essa parte. É interessante a forma como a família dele formada pelos amigos, completa a família biológica.

Depois de Michel, Mathieu sente que finalmente deixou para trás a adolescência e conseguiu amadurecer e se tornar quem ele é hoje.

O livro trata do poder transformador que algumas amizades tem, de como carregamos os melhores traços de nossos amigos com a gente pelo resto da vida e como isso pode melhorar aspectos das nossas vidas que nem esperávamos que um dia fosse conseguir mudar.

A sensibilidade do livro, a comoção que o autor sente ao relembrar as pessoas que tiveram grande importancia em sua formação, faz com que a gente também pare pra pesar o quanto nossa familia e amigos nos influenciam e contribuem sempre para que a gente seja alguém sempre melhor.

O livro é realmente muito bonito e muito sensível. Além disso, é recheado de referências literárias, o que deixa o livro muito mais interessante.

O que amar quer dizer foi publicado pela Cosac Naify e tem 285 páginas.

Eu havia conhecido pessoas que mereciam que lhes prestassem homenagem melhor do que aqueles que lhes prestavam homenagem, e havia muitos anos, que com todo meu afeto e durante a vida delas, eu as homenageava ao meu modo, sem esperar uma ocasião sinistra.

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