Para perder o trauma de Machado – O Alienista

Eu ia me segurar e falar do livro Papeis Avulsos como um todo, mas esse conto é tão incrível que não consegui deixar ele guardadinho.

Primeira coisa que eu vou dizer é: pára de torcer o nariz para a obra do Machado. Se você leu na escola, achou difícil e não entendeu qual era a graça daquele livro a culpa não é do Machado. A nossa experiencia de leitura muda muito com o momento da nossa vida, a nossa maturidade, nossas experiencias pessoais… enfim, tudo é muito relativo. Se você só deu uma chance pro Machado porque sua professora do fundamental ou o vestibular te obrigou, respira, limpa o trauma do coraçãozinho e vem conhecer esse autor de novo.

E isso eu to falando pro Machado, mas na verdade serve pra qualquer autor clássico. A gente fala muito sobre o preconceito literário contra YA, livros de fantasia e etc, Não nego que ele existe, mas não vamos ignorar que existe toda uma barreira com gêneros mais clássicos também. A gente sempre fica numa zona de conforto e na minha opinião tem muito leitor que se acomoda num medo desnecessário e fica imaginando que o autor x é difícil, o livro y vai ser chato porque é um clássico e não é bem assim né? É só um livro, são só palavras, pára com isso de ter medo. Gosto é gosto, ninguém é obrigado a amar Machado ou qualquer outro autor, mas você já deu uma chance de verdade?

Mas vamos falar desse conto que é uma bela sacolejada.
alieO alienista vai contar a historia de um médico português Simão Bacamarte, que vai tumultuar a vida dos moradores de Itaguaí. O tal do medico começa a ler sobre psiquiatria e um belo dia resolve que vai montar um hospício e tratar os doentes da cidade e região e constrói a Casa Verde. E é na Casa Verde que ele começa a tratar pessoas que ele julga ter transtornos psicologicos, mas que para o resto da sociedade eram sãs. A ideia dele era fazer um estudo aprofundado para determinar os limites entre a loucura e a sanidade.

A grande sacada desse conto é que o Machado usa todos os personagens para criticar a sociedade da época. O Bacamarte faz nada mais nada menos que sair julgando as atitudes das pessoas. Ele passa a dizer o que é normal e o que não é e pra isso ele usa critérios inesperados. Ele vai julgar a vaidade, o quanto alguém se valoriza, a humildade, a dedicação que uma pessoa tem pela outra e até a lábia de alguns sujeitos. Tudo pra ele é questionável e se quebrar minimamente o equilíbrio, que ele julga ser o saudável, pronto, já temos mais um desajustado na cidade. Logo a Casa Verde fica lotada e tem mais gente internada do que fora desse casarão.

É muito maluco isso de julgar as pessoas por pequenas atitudes e traços da personalidade. Um detalhe minimo é capaz de arruinar toda a sanidade do cidadão.

Machado também vai criticar como que a gente pode decidir o que é normal ou não? Como vamos definir o limite entre uma característica boa e uma ruim? No fundo, todo mundo é meio maluco e será que isso é assim tão ruim?

Lógico que a população de Itaguaí não aceita tudo isso numa boa e a cidade perde o controle e quer a cabeça do Alienista. E essa também é uma parte carregada de ironias e criticas.

O conto é divertidíssimo e muito surpreendente. Você fica sem acreditar tanto nas atitudes da população quanto nas atitudes do Simão Bacamarte. É muito gostoso acompanhar como as personagens vão aprendendo com as situações e as transformações que acontecem na vida de cada um. E o final desse livro é ainda mais maluco do que qualquer outro trecho do conto. É daquelas historias que você vai dar uma digerida, vai refletir sobre algumas coisas do seu cotidiano e vai levar para sempre o Alienista Bacamarte.

Tem palavras que não são do nosso uso comum? Lógico que sim! Mas só são algumas, quase nada. Você tem que parar de ler e ficar olhando o significado de cada uma no dicionario? Lógico que não. Pode ser que uma ou outra você queira olhar, mas pelo texto você já entende o sentido da palavra e segue a leitura. Não vamos fazer tempestade em copo d’água. Se você traumatizou lá no passado com Dom Casmurro, recomendo fortemente que dê uma segunda chance pro Machado, mas comece com os contos. São todos carregados de ironia e criticas, mas são muito divertidos. Seus traumas vão passar, ou pelo menos você vai que não é nenhum monstro verde de bolinhas roxas.

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