Bonsai – Alejandro Zambra

Há algum tempo atrás eu escrevi aqui no blog sobre o livro Formas de voltar para casa do Alejandro Zambra. Esse foi o primeiro livro que eu li do autor e foi o terceiro livro que dele lançado aqui no Brasil. Logo que eu terminei de ler fui procurar algumas resenhas e comentários sobre ele pela internet e encontrei muita gente falando mal do livro. A maioria dos textos que eu li falavam que o livro decepcionou os leitores, que todo mundo tinha uma expectativa muito alta por ter gostado muito do primeiro livro do Zambra, Bonsai.

Eu não vi essa critica só pro Formas de voltar para casa, li o mesmo tipo de texto quando procurei sobre A vida secreta das árvores, que foi o segundo livro do autor.

Particularmente eu adorei Formas de voltar para casa, não vou entrar em detalhes porque já tem texto sobre ele aqui no blog e você pode clicar no titulo do livro aqui pelo texto e ir lá conferir a minha opinião. Por ter gostado tanto do estilo do Zambra e por ler tantos elogios ao Bonsai resolvi ler esse livro também. 110_293-Bonsai

Depois de terminar o livro eu tive dois pensamentos. O primeiro obviamente foi que o livro é sensacional, obviamente. O segundo foi uma mini reflexão sobre porque as pessoas que gostaram tanto de Bonsai não deveriam se decepcionar com Formas de voltar para casa.

Vou explicar melhor. Bonsai conta a historia de um casal e o autor já da um belo de um spoiler logo na primeira frase do livro.

No final ela morre e ele fica sozinho, ainda que na verdade ele já tivesse ficado sozinho anos antes da morte dela, de Emilia.

Então depois de jogar essa bomba na sua cara o Zambra começa a contar como foi o relacionamento de Julio e Emilia. Esse casal fazia faculdade juntos e em algum momento eles passam a dormir juntos (if you know what I mean…) e eles tem uma vontade de surpreender o outro, de encantar o outro através da sua inteligência. Então eles comentam sobre os livros que já leram e até acabam mentindo sobre isso só pra causar uma impressão melhor. E o relacionamento deles foi todo baseado na literatura (amantes de livros surtam com a genialidade do Zambra pra encaixar a literatura nessa historia de amor). Eles usam a literatura até como um fetiche, textos literários faziam parte das preliminares do casal. Mas, como o autor já falou, esse relacionamento não dura pra sempre. Na verdade ele é bem efêmero. Até acho que a efemeridade foi por causa da intensidade. Foi tudo tão intenso, que quando a emoção deu uma estabilizada, perdeu a graça. Além da historia de Julio e Emilia, conhecemos a historia de alguns amigos do casal. Logo nos primeiros capítulos somos apresentados a Anita, que é uma amiga da Emilia. Também conhecemos Andrés, que casa com a Anita. Basicamente a historia corre entre a vida desses personagens. O Zambra aprofunda  na personalidade de cada um deles e também em como eles se relacionavam. O que eles gostavam ou não um no outro. Acontece que o casal Julio e Emilia se separa, cada um vai pra um canto viver sua vida e o Julio em algum momento começa a escrever um livro. Não vou contar mais detalhes porque essa parte do livro é sensacional e tudo vai fazer sentido na sua vida.
Pra mim a grande sacada de Bonsai é que o Zambra é muito direto. Ele te da um super spoiler que pode abalar os leitores mais sensíveis a surpresas, e mesmo assim ele constrói um livro incrível. Bonsai é uma historia que te cativa pela simplicidade. Os personagens são falhos, são humanos, você consegue quase tocar eles. A escrita do Zambra é muito simples, mas muito bem trabalhada, muito bem lapidada. Quando você lê um livro que nem esse você entende que a grande graça da literatura não é a historia que é contada, mas a forma como essa historia é contada. Na minha opinião um bom autor não é aquele que consegue criar a historia mais mirabolante. É aquele que consegue usar a linguagem com inteligência e que transforma qualquer assunto em uma grande historia. Eu senti isso com o Grande Irmão da Lionel Shriver e senti isso em Bonsai. Na verdade eu sinto isso em muitos autores mas, vou falar só desses exemplos por enquanto, porque é o que tem de mais recente aqui no Blog.

O que eu mais gostei em Bonsai é como o Zambra troca o foco de um personagem pro outro. São cortes bruscos mas, que não deixam a historia estranha, não fica forçado. E ele aprofunda nos personagens sem deixar o livro denso, cansativo e pesado. A historia é divertida, é leve, é gostosa de ler, é daquelas leituras que você começa e lê tudo até o final de uma vez só. Os capítulos são muito bem construídos, são redondinhos e eles te puxam pra ler o próximo.
Uma coisa que eu senti em Bonsai e em Formas de voltar para casa é que o Zambra tem essa pegada de contar uma historia banal. Ele não vai contar um grande romance, ou fazer uma grande reflexão sobre a ditadura do Pinochet. Ele vai te mostrar o outro lado. Ele vai mostrar um amor breve, intenso e que marca a vida de alguém, mas que é efêmero. Ele vai te mostrar o contexto politico da ditadura no Chile, mas não vai entrar em detalhes, ele vai contar sobre as marcas que aquele momento histórico causou mesmo em alguém que não se envolveu com a politica da época.  O Zambra é muito sutil, muito delicado.

O modo como o Zambra conduz suas historias é muito particular. É uma escrita muito leve, muito bem trabalhada e muito sincera. Eu acho que é um livro que agrada praticamente qualquer leitor. Digo praticamente porque cada um tem um gosto diferente.

Enfim, eu adorei o livro. Achei genial a estrutura do texto e a delicadeza da historia. E amei de onde ele tirou o titulo do livro, achei essa parte da historia sensacional.

Vou deixar aqui um ultimo trecho do livro em que o Zambra define muito bem o relacionamento entre Julio e Emilia.

Esta é, então, uma historia leve que se torna pesada. Esta é a história de dois estudantes devotados à verdade, a dispersar frases que parecem verdadeiras, a fumar cigarros eternos e se fechar na violenta complacência dos que se creem melhores, mais puros do que o resto, do que esse imenso e desprezível grupo que chamam de resto.

Bonsai foi lançado no Brasil pela editora Cosac Naify e tem apenas 96 páginas, da pra ler em uma sentada só tranquilamente. Leitura gostosa com cara de final de semana preguiçoso.

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