Quem faz a nossa literatura e para quem ela é feita

Um tempo atrás postei na pagina do Literateca no facebook um infográfico me causou um desconforto muito grande. O infográfico foi gerado com base nos dados da pesquisa da professora da UNB, Regina Dalcastagné, e mostra alguns Personagem Brasileiro generalistaperfis gerais das principais obras da nossa literatura. A “grande surpresa” é que a grande maioria dos personagens são homens (62,1%), brancos (79,8%), de classe média (56,6%), heterossexual (81%) e em geral vivem em metrópoles (82,6%).

Além disso, o infográfico mostra dados sobre o perfil dos escritores brasileiros. 72,7% são homens, 93,9% são brancos e 78,8% possuem ensino superior.

Ok, ai pequeno padawan você me pergunta: mas o que você quer dizer com esse monte de números?

Simples, muito simples. A literatura é um reflexo da nossa sociedade. Sendo curta e grossa esses números mostram o que é valorizado pela sociedade brasileira e pra quem ela é escrita.

Tenho mania de bater na tecla que a literatura ta ai pra fazer a gente desconstruir nossos valores e tabus e passar a enxergar o mundo com outros olhos. Mas me diz uma coisa, como mudar a nossa visão de mundo com uma literatura que não se preocupa com as minorias? Uma literatura que só reforça os valores mais conservadores da nossa sociedade.

Ta, você ainda não entendeu o que eu quero dizer? Ok, vou mostrar mais alguns números que causam um pouco mais de desconforto. Como eu falei, a maioria esmagadora dos personagens são os homens brancos. Sabe como os 20,2% dos negros aparecem nos livrosescritor brasileiro generalista?

73,5% deles são pobres e 20,4% são bandidos. Entre os personagens adolescentes 56,3% dos adolescentes negros são dependentes químicos contra 7,5% dos adolescentes brancos na mesma situação.

Você realmente acha que esses números não mostram nenhum tipo de preconceito? Por que os personagens negros não são os principais da historia? O preconceito racial não é questionado na nossa literatura, mas sim reforçado. E o que mais me incomoda é que geralmente lemos essas coisas e passamos batidos por esses detalhes.

A literatura ainda é elitizada. Por mais que os livros sejam mais acessíveis hoje em dia a literatura ainda é feita para a classe média, branca e heterossexual. Ainda nos prendemos exclusivamente a realidade e as necessidades desse grupo. Os números dessa pesquisa só reforçam o preconceito e o descaso com as minorias que ainda existe entre os brasileiros.

O outro ponto que eu queria abordar é a questão da mulher na literatura.  Deixei esse tópico separado porque o meu incomodo não veio só do infográfico que eu postei, mas também de dois outros posts. Um deles é do blog posfácio em que Arthur Tertuliano sugere que a gente aplique o teste de Bechdel nos livros que lemos. Pra quem não conhece, o teste consiste em se questionar se uma obra de ficção tem pelo menos duas mulheres que conversam entre si sobre assuntos que não sejam homens. Quando eu li esse post do posfácio eu fiquei muito impressionada em como a grande maioria dos livros que eu gosto simplesmente não se encaixam nesse teste. Deu uma decepção muito grande. Dias depois um colega fez um post no facebook que falava justamente sobre essa  falta de diversidade na literatura e a discussão nos comentários acabou pendendo bastante pra questão da mulher. Quando aparece alguma personagem feminina nos livros em geral ela é ligada a um personagem masculino e muitas vezes ela é dona de casa.

Além disso, outra coisa que me chama muito a atenção é que em geral as escritoras não são tão valorizadas quanto os escritores. Olha na sua prateleira e conta quantos livros você tem que foram escritos por mulheres. Pois é, quase nenhum né? Agora conta quantos livros são escritos por homens brancos do ocidente. A grande maioria dos livros que são vendidos foram escritos por homens e em geral (infelizmente) as escritoras são deixadas de lado. Fica aquela imagem de que “atividades mentais não são para mulheres, vai lá lavar a louça e cuidar da casa que você ganha mais. ”
(Lógico que tem muita gente por ai que aprecia muito o trabalho de várias autoras, mas estou falando de uma maneira beeem geral)

Eu quis escrever um post sobre isso porque eu nunca tinha parado pra prestar atenção em como a maioria esmagadora dos livros exclui tanto as pessoas, principalmente os livros clássicos. Acho interessante a gente parar pra refletir sobre o quanto os escritores negros, assim como as escritoras, são desvalorizados. Refletir sobre o tanto de preconceito que vem entrelinhas nos livros.
Agora não consigo mais pegar um livro pra ler sem prestar atenção nesses detalhes.
O texto ficou muito simples e raso, mas espero que tenha causado pelo menos um leve incomodo em vocês e que agora vocês também prestem mais atenção nos padrões que se repetem nos livros.

E pra quem gosta de ler sobre gênero e questão racial, mais uma vez recomendo o livro Americanah (leia o post sobre esse livro aqui)

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15 comentários sobre “Quem faz a nossa literatura e para quem ela é feita

  1. Incomodou, sim. O mais curioso é que esse padrão mostrado nos gráficos se repete nos contos publicados nos desafios do Entre Contos. Os textos são, em sua maioria, excelentes, mas seguem a tendência mencionada nos gráficos que você comentou. Talvez realmente esteja na hora de lançar um certame com histórias narradas ou protagonizadas por mulheres, e que o assunto tratado entre elas não se refira a homens.

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      1. Pois é, o problema é justamente esse: a ideia de colocar negros e mulheres não vem naturalmente. Isso é fruto, como você bem demonstrou, de nossa herança literária, dos livros que lemos e amamos e que acabam influenciando a maneira como escrevemos, sejamos homens ou mesmo mulheres. Mas quero ser otimista e pensar que há uma luz lá no finalzinho, já que pelo menos há textos sobre o problema — algo que sequer existia até pouco tempo atrás.
        Abraços para você também 🙂

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      2. Nao só da herança literaria, mas a herança cultural de uma maneira geral. Infelizmente nossa sociedade ainda tem muito machismo e preconceito racial. Por isso que eu falei, a literatura é só mais um reflexo da nossa sociedade.
        É dificil quebrar essa tradição, mas é muito importante que isso aconteça.

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  2. Interessante sua observação sobre a literatura ser um reflexo da realidade.
    O Thomas Piketty, no seu livro O Capital no Século XXI, usa este recurso para ilustrar o contexto econômico da França e da Inglaterra no final do século XVIII, início no do XIX, ao citar as obras de Honoré de Balzac (O Pai Goriot) e Jane Austen (não lembro qual livro dela ele cita, acho que Razão e Sensibilidade).

    Ele se utilizar deste recurso me ajudou bastante a visualizar o que estava querendo dizer. Eu já li o Pride and Prejudice da Jane Austen. Livro que, no meu ponto de vista, passa no Teste Bechdel. O personagem principal é uma mulher, a Elizabeth Bennett que, embora fale com diversos outros personagens mulheres sobre homens, a história não se resume a isso, todo enredo envolve sua vida (amorosa e familiar), suas irmãs, paixão, a família e a cultura britânica da época (com questões de direito de propriedade, direito sucessório e de família, casamento, patrimônio, etc…).

    É um livro muito bom, recomendo! 😉

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    1. Amo jane austen e orgulho e preconceito é sensacional. So li dois livros dela e os dois passam no teste. Eu li tambem razao e sensibilidade e é maravilhoso. Tenho outro livro dela aqui pra ler. Em todas as obras dela as mulheres sao bem modernas e se preocupam com muito mais do que homens e tarefas de casa.
      Mas infelizmente ainda tem mto livro que nao passa.
      Pensando rapido eu sei que Anna Karenina passa tb, esse livro que citei no post, Americanah, tb passa. Mas é dificil pensar em muitos outros livros (ate por nao lembrar de tantos detalhes das historias)

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    2. Seu comentário me fez lembrar de “Reparação”, do Ian McEwan. Acho que também passa no teste Bechdel, já que uma das protagonistas, a jovem Brioni Tallis, é alguém que busca compensar um erro por meio da escrita e não lembra, em momento algum, o estereótipo de mulher presente na maioria dos romances vistos por aí. Um livro fantástico, mas, infelizmente, uma exceção à regra.

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      1. Ele é um excelente autor mesmo. Aliás, o filme que fizeram baseado no “Reparação”, com a Keira Knightley e o James McAvoy, tbm é muito bom — uma exceção à regra (já que falamos de exceções) de que os filmes são sempre inferiores ao livro. Neste caso, eu diria que há um empate, rs
        Sorry, fugi do assunto do post, rss

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  3. Os escritores falam, antes de mais nada, de suas vivências pessoais. Como escritor, posso garantir que é muito difícil criar um personagem feminino. Para uma escritora, também não será simples desenvolver personagens masculinos. Isso não é uma “limitação” de nenhuma parte, é apenas da natureza: escrever sobre aquilo que se vive internamente.
    Por isso, o problema é antes social: as mulheres sempre sofreram mais preconceitos para ingressar na prática da intelectualidade. Mas, se deseja ler incríveis personagens femininas, leia Clarice Lispector ou Katherine Mansfield, por exemplo.
    Felizmente, há cada vez mais mulheres se destacando na criação artística, e a tendência é que, no futuro, vá haver um equilíbrio.

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    1. Eu entendo o que vc quer dizer, por isso mesmo coloquei no texto que a literatura é um reflexo da nossa sociedade e dos nosso valores.
      Entendo que os livros são escritos com base nas experiencias vividas pelos autores.
      Mas não podemos tampar o sol com a peneira e ignorar as falhas da literatura e da nossa sociedade.
      Sei que não é facil escrever sobre um genero diferente do seu, de se aprofundar num mundo que não é o seu, mas pra mim os autores que fazem isso são aqueles geniais que conseguem explorar bem demais a literatura.
      Não é uma critica, mas acho que é normal a gente se acomodar no que é a nossa realidade e esquecer dos outros, só que o meu ponto de visto, assim como ja falei antes, é que a literatura ta ai pra abrir os nossos olhos para novas realidades então não podemos nos conformar com uma literatura sem diversidade. Acho interessante prestar atenção nesses dados e refletir como a gente pode mudar esse cenário nos proximos livros.

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  4. Incrível como uma simples reflexão nos faz pensar em assuntos que estão tão naturalizados que nem nos preocupamos ou falamos sobre. São questionamentos muito importantes, principalmente para mostrar que a sociedade em que vivemos é sim racista e é sim machista.

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