Alabardas, Alabardas – O livro póstumo de José Saramago

Alabardas, Alabardas, espingardas, espingardas. Esse seria o titulo do ultimo livro de José Saramago. Após o lançamento de Cain em 2009, Saramago começou a escrever uma nova historia. Quando faleceu, em 2010, ele só tinha escrito 3 capítulos desse livro e não tinha muita certeza sobre o titulo e nem sobre o rumo real do livro. Os capítulos e mais algumas anotações foram encontrados após a morte do autor e foram publicados ano passado pela Companhia das Letras.

O livro póstumo de Saramago foi o ultimo livro que eu li em 2014 e eu fiquei bem empolgada pra falar sobre ele aqui no blog. Apesar de conhecer muito pouco da obra de Saramago sou grande fã dele.  PorAlabardas, Alabardas enquanto só li 5 livros dele mas não tem como falar mal de nenhum deles. Na verdade um deles quase me decepcionou um pouquinho, mas no final o amor voltou ao normal, mas vou deixar pra falar sobre esse livro em outra oportunidade.

Como eu falei o livro só tem 3 capítulos e conta a historia de Artur Paz Semedo, um homem apaixonado por armas e historias de guerra, que trabalha em uma fabrica de armas. Sua ex mulher, Felicia, se divorciou dele por ser uma pacifista e não suportar o que o marido tanto apreciava e não concordar com o seu trabalho.  Se eu contar mais do que isso vou acabar sendo xingada por dar spoiler da historia, então vou parar por aqui.
Aparentemente o livro ia ser construído nesse espelho com as contradições de ideais entre Artur e Felicia.

Bom, mas isso é basicamente metade do livro. Além dos 3 capitulos de Alabardas, Alabardas, no livro que foi publicado ano passado também encontramos algumas anotações pessoais do autor sobre a construção da historia. Algumas ideias que motivaram ele a falar sobre a indústria armamentista, ideias sobre os personagens, sobre titulo e etc. Não tem como não se emocionar nessa parte. Principalmente quando ele fala “Sairá ao publico no ano que vem se a vida não me falta” (24 de outubro de 2009)

Além disso,  também tem alguns textos de 3 autores sobre a opinião deles sobre as obras do Saramago, sobre as impressões pessoais desses primeiros capitulos e suas expectativas sobre o desenvolvimento da historia. É uma parte bem interessante do livro.

O que eu mais gosto nos livros do Saramago é que em todos eles tem aquela agulhinha pra cutucar a sociedade. Mesmo o mais simples que eu li dele já dava uma bela alfinetada e faz com que o leitor se questione de algumas coisas. Pra expressar melhor meu sentimento vou usar um trecho de um dos textos que vem no Alabardas, Alabardas:

“A partir do Ensaio sobre a cegueira, perseverou em escrutar e iluminar essas zonas de sombra que afetam e causam dano à dignidade humana, penetrando na consciência e nas formas de relação do sujeito tardo-moderno.  Junto com o apelo ao pensamento, seu compromisso intelectual recusava a indiferença e a apatia moral”

(Fernando Goméz Aguilera)

José Saramago é foda! Era um velhinho de sarcástico, extremamente inteligente e que foi muitoJosé Saramago criticado por não ser lá a pessoa mais religiosa do mundo. Ta, na verdade ele não era nada religioso. Os livros dele são daqueles que vão fundo na essência humana, que encontram as nossas feridas e metem o dedo com gosto, sem dó nem piedade. E se você não tomar cuidado pode até tomar um belo soco no estomago de alguns valores. Quando você lê uma obra do Saramago não tem como não passar uns dias digerindo tudo aquilo. E essa reflexão faz você olhar tudo em volta com outros olhos. É arte pura.

Não vou dizer que é a coisa mais fácil do mundo ler os livros dele. Apesar de eu amar as obras do Saramago eu demorei um pouquinho pra me acostumar com a estrutura de texto e a pontuação. Sem contar que os livros são escritos (obviamente) em português de Portugal, ai rola aquele desconforto quando a gente vê todos aqueles “c” onde não tem. Mas nada demais, antes da metade do livro você já ta mais que acostumado e a leitura flui normalmente.

Se você nunca leu nada dele, vale a pena conhecer. Por enquanto o livro mais leve que li do Saramago foi “As intermitências da morte”. É uma boa opção pra conhecer o estilo do autor.

Alabardas, Alabardas, espingardas, espingardas foi publicado em 2014 pela Companhia das Letras. O livro tem várias ilustrações bem bonitas e são só 111 páginas de muita emoção.

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2 comentários sobre “Alabardas, Alabardas – O livro póstumo de José Saramago

  1. Um pouco antes de terminar o post, já ia te perguntar se tinhas alguma sugestão de primeiro livro para aqueles que nunca leram Saramago. Um amigo comentou sobre o quanto gostou de As Intermitências da Morte e acho que vou dar o pontapé inicial nas obras dele com esse 🙂

    Ótimo texto e realmente triste que ele tenha partido sem concluir a obra.

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